Esta semana o Fio de Ariadne publica os seis contos selecionados no II Concurso de Contos do blog em parceria com a Editora Zahar. Durante uma semana, os contos estarão em apreciação pelos leitores que poderão comentar e deixar suas notas. Ao final da avaliação será tirada uma média das notas para ser acrescida as notas dos jurados. Só poderão comentar leitores cadastrados no blogger e não serão aceitos comentários anônimos. Ajude a escolher o conto vencedor, escreva um breve comentário sobre cada conto e dê uma nota de 5 a 10. Atenção: notas sem comentários não serão computadas e os comentários só serão divulgados depois de encerrada a votação. E vale lembrar: o tema do concurso é Contos de Fadas. O conto de hoje O sapato é de autoria da redatora Shirley Guimarães do blog De volta pra casa
Andava de pés descalços no passeio ainda úmido pelo sereno da noite. O dia começava como todos os demais para a menina. Aline saía à procura dos restos que sobravam das festas na porta de um grande clube de São Paulo. O que fosse de comer ia direto para uma sacola rota que trazia ao ombro. O que fosse de valor, se é que é possível achar algo relevante no lixo, escondia no bolso da calça surrada.
Remexeu dentro de uma caixa de papelão na esperança de um pedaço de pão ou carne, descartada por algum convidado da festa na noite anterior. Festa chique! Aline vira, escondida por trás do muro, quando mulheres elegantes chegaram em vestidos de baile, esvoaçantes uns, brilhantes outros. Homens em ternos e casacas mostravam os benefícios que o dinheiro pode proporcionar. Aline dormira esperançosa, afinal, uma festa dessas deveria ter muita comida boa e a manhã lhe reservaria algo de proveitoso para seu estômago vazio.
Achou um docinho ainda inteiro – sorte! – que mandou logo pra dentro da boca, antes que algo de ruim pudesse acontecer e lhe tirar este presente. Encontrou uma echarpe vermelha com um rasgo. Provavelmente alguma dama imprudente a descartara após danificar o tecido em alguma dobradiça de porta. Guardou-a na sacola, pensando que talvez aquele pedaço de pano pudesse esquentar-lhe um pouco o corpo nas noites frias da cidade grande.
Separou o que podia, guardou o que merecia ser guardado. Já ia indo embora, quando, ali num canto, embaixo de um papelão molhado, pareceu ver algum brilho. Seria um anel, um relógio, um brinco perdido! Seu coração palpitou ante a chance de ser agraciada com tamanha surpresa. Levantou o papelão e viu. Primeiro a fivela cravejada com pedrinhas reluzentes, depois, o restante do sapato esquecido. Era de um tom de telha, um vermelho com ares de marrom, ou o contrário. Não importa. Mas a cor a fez lembrar do telhado da antiga casa do abrigo de onde fugira, dois meses após ser internada devido à morte da mãe. Sacudiu a cabeça como a tentar esquecer as más lembranças e apanhou o sapato de tecido forrado.
– Nossa! Que bonito! Quem terá esquecido? E como foi embora pra casa? Descalça? – Aline olhou seus pezinhos miúdos descalços na calçada fria e pensou: – Ah, não é nada tão terrível assim, eu mesma ando descalça por aí e não morri por causa disso.
Pareceu orgulhosa de sua conclusão, pegou o sapato e escondeu-o na sacola. Afastando-se do clube, dirigiu-se ao canto improvisado com papelão sob um viaduto, onde costumava se esconder do frio. Comeu o que havia conseguido em sua busca, enquanto olhava o volume do sapato dentro da sacola, imaginando quem o teria perdido e como. Talvez alguma mulher tenha fugido dos abraços de um homem mais afoito. Será que bebeu demais e tropeçou no jardim na hora de entrar no carro? Como saber? O que sabia era que agora ela era a dona do sapato mais bonito que já havia visto na vida. Apanhou-o e virou-o para examinar a sola. Viu um número. Apesar de não saber ler, conhecia os números e logo identificou: 38. Tinha um grande salto, bem fino:
– Como alguém consegue se equilibrar em cima disso? – pensava, ao mesmo tempo em que enfiou o pezinho sujo no sapato esquerdo, sobrando ainda uns quatro dedos de calçado vazio. Levantou-se e tentou ficar de pé. Era difícil, viu? Improvisou uma pose de dama rica, enquanto ordenava os serviçais imaginários a lhe servirem uma mesa farta de doces, bolos e refrigerante. Deliciou-se com esta visão e já começava a se sentir como as mulheres elegantes que vira na festa, com seus belos vestidos de baile e jóias.
Recostou-se no papelão e fechou os olhos pra ver melhor. De repente, entrava ela própria naquele baile, calçando não só um, mas o par de sapatos grená brilhantes e um belo vestido como jamais tinha visto. Entrou acompanhada por um belo e jovem rapaz, dançou, comeu, bebeu, sorriu como há tempos não fazia. No final do baile, se despediu do jovem que relutou em deixá-la ir. Ela correu por entre as árvores do jardim e, na pressa, deixou o sapato cair junto a uma roseira. Deixou-o pra trás e fugiu. Acordou assustada com alguém cutucando seu pé calçado no sapato.
– Aqui não é lugar pra mendigo. Pode ir circulando. – bradou o guarda com cara de pouca amizade. Aline pegou suas poucas coisas, seu precioso sapato e partiu, buscando outro lugar para sonhar.
21 fios puxados:
Simplesmente emocionante... Bem escrito, bem desenvolvido. Mexe um bocado com nossa imaginação e nossos sentimentos.
Nota: 10 (e sem pestanejar!)
O Sapato, nota 4.
Conto bastante contundente, crianças são crianças; sonham mesmo que em circustâncias desfavoráveis.
abs
Jussara
Enfim um conto original, recria e questiona a fantasia. Merece 10.
Refazendo a nota de O Sapato,nota 9.
abs
Jussara
Shirley! Gostei bastante! parabens! Bjka!
Bom enredo! A linguagem merecia alguma cuidado extra em alguns pontos, mas o conjunto é bom! Vai um 8.
Gostei muito desse conto, mesmo nas piores situações sempre podemos sonhar...
uma delicadeza de conto!!!!!!!!!aponta para uma dura realidade na qual nos encontramos hoje em dia, mas ao mesmo tempo mostra que ainda é possível sonhar......
lindo, lindo, lindo!!!!!!!!!
deixei um comentário anteriormente mas esqueci de dar a nota que não poderia ser outra a não ser 10!!!!!!!!!!!
conto delicado, sensível, que consegue traduzir a dura realidade na qual vivemos, mas também a possibilidade de ainda podermos sonhar!!!!!
Meu nome é Claudia.
Adorei este conto! Traz uma linha divisória entre imaginação e realidade...
E quantas vezes não cruzamos essa linha em busca de uma realidade melhor?
Minha nota é 9!
10
Muito Bom! Sonhar sempre, isso ninguém pode controlar.
Parabéns
George
Conto "O Sapato" - nota 10
A trajetória de Aline encanta pelo sonho como posibilidade de viver o que ainda não se viveu. O sonho de Aline nutre sua fantasia, e proporciona o encontro com o sentimento de felicidade.
Rosane Freitas
Andava de pés descalços no passeio ainda úmido pelo sereno da noite...esse convite "de primeira linha" seduz ao passeio por estas letras e palavras, com os pés desarmados de quem quer sentir o CHÃO e o sereno da noite, sumo conteúdo. O sapato diz: número 38 gravado - e quantos anos ainda tenho à frente? A minha menina adormece no sonho da fivela cravejada de pedrinhas, reluzentes: O sonho é o rapaz, belo, jovem e que DANÇA...mas, a realidade é outra, o guarda, que fala do que é, do que assim está, do que deve ser preservado. Assim posto, juntemos nossas coisas (as mais importantes) e num pulo, busquemos, sempre...Muito bom, linda! Gostei do passeio contigo.
Bom, legal Shirley - muito bom. Há pouco postei um comentário maior, meio inspirado, mas não sei onde foi parar, quando dei ENTER ficou tudo em BRANCO...esses trecos da informática
Nossa, que lindo. Ainda estou emocionado.A autora conseguiu atualizar e tornar lúdico um tema tão complexo e doloroso como a miséria. O Sapato é uma pequena obra prima. Boa sorte! E que Aline, a autora e todos nós nunca percamos a capacidade de... Sonhar!
Dou nota 5 (cinco)
Shirley! Nota 10! Que lindo! Sonhos ... teu conto me remeteu a uma citação que adoro ... "Sonhar é acordar-se para dentro." (Mário Quintana)... procuremos todos, sempre, um bom lugar para sonhar ... pra você, meu carinho e boa sorte! que todos os sonhos que forem te fazer feliz e realizada se realizem ... está dito!!! Elaine
Uma cinderela diferente e atual... gostei bastante desse conto, porém merecia um final feliz e mágico... Por isso minha nota é 9,5
Vivian
Adorei. Sonhar, é preciso ou necessário?
Nota 10
Ótimo leitura! Nota: 10
Excelente conto e merecia um final feliz. Em vez do guarda chamar de mendigo devia encaminhar para o Orfanato e aí ela era adotada por uma família e o sapato teria sido o seu amuleto da sorte.
Beijos
Eu daria 9,6 para este texto. Mas, onde votar?
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