Sobre a calçada
A calçada era estreita, e eu já estava nela há, pelo menos,cinco minutos. Nada mais sensato do que eu possuir prioridade sobre ela. Então,displicente como bicho-preguiça, arrastando os pés, olhando em frente, semolhar nada, vejo um homem caminhando em minha direção, ocupando a mesma calçadaque eu, o mesmo lado da calçada que eu. Ele vai mudar de lado, claro ― pensei.Estávamos a uns dez metros de distância um do outro, ou seja, faltava poucotempo para uma colisão, se o dito cujo que se intrometera na minha calçada nãomudasse de lado. Daqui não saio ― resmunguei ―, cheguei primeiro. Mas o intrusonão dava sinal de que sairia da minha frente. Possivelmente até já havia mevisto e estava preparado para uma disputa. Quem ele pensa que é, um gladiador? ―murmurei já azedando. Nem que ele esbarre em mim eu mudo meu rumo. Canalhaintrometido, tanto lugar na porcaria desta calçada e ele vem logo na minhadireção.
Já pronto para o jogo de quem pode mais, eu mantinha opeito estufado, viril, macho até a raiz dos meus cabelos ausentes. O inimigoparecia fingir que não me via, obviamente uma tática cínica para não mudar delado e me enfrentar. O babaca está achando que eu sou um mané ― confidenciei-meentre os dentes trincados. Quero o ver passar por cima de mim. Deve estarcrente que eu vou me acovardar, esse esmilinguido duma figa.
Agora a distância para a colisão não era mais do que trêsmetros, e o desgraçado vindo, braços balançando como duas gangorras laterais,pernas abertas como uma vítima de assaduras nas partes e a cabeça pro lado,feito um garoto propaganda de cuecas. É agora ― arranhei os dentes, ereto,bravo, de olhos vidrados, coração saltando, boca de vale-tudo, punhos cerradose muita disposição para o que viria; enquanto o esmilinguido caminhavainvertebrado, blazè, com cara de “Tô nem vendo!”.
E assim nos aproximamos um do outro, cada vez mais, cadavez mais, centímetro a centímetro, segundo a segundo, feito dois guerreiros depaíses inimigos, dois gorilas disputando a fêmea, destemidos, prontos a darnossas vidas pela calçada, até que, olho no olho, já sentindo o cheiro fétidodo inimigo, ombros prestes ao impacto, dei meio passo para a direita e o Zé Relaum passo inteiro para o sentido contrário. Ainda tocamos os ombros, levemente,mas eu, claro, venci. Eu sabia ― vibrei por dentro com um sorriso vitorioso noslábios ―. Ganhei do salsichão por meio passo. Aqui não tem pra ninguém, rapá ―ainda me gritei por dentro ―, a calçada é minha! E continuei meu caminho semolhar pra trás, que é assim que um homem de verdade faz, após uma disputa de vidaou morte, ele segue sem medo de traição, por que olhar pra trás é sinal demedo, de covardia, e gladiadores não atacam pelas costas. É assim que é, eassim que sempre será.
Jamais, em toda a minha vida de calçada, perdi uma disputadessas. Pode ser grande ou pequeno a calçada é minha. Tem gente que pensa que édono do mundo, anda numa calçada e não arreda o pé quando vê alguém no sentidocontrário, mas comigo não tem essa não, apareceu na minha frente vai ter quemudar de lado. Teve até uma vez que uma senhora de uns setenta e dois anoscaminhava sozinha na calçada que eu estava e não mudou de lado até que euesbarrasse nela e gritasse Vê se olha por onde anda, matusalém! E a velha aindateve o desplante de me sacudir o guarda-chuva bufando um palavrão que sóconsegui entender o final: ... duma égua. Ora, ora, acha que só por que foibatizada por João Batista tem mais direito a calçada do que eu. Ah, e teve também um senhor numa cadeira derodas que quase me quebra o joelho, o barbeiro. Não sei por que raios aquelesenhor andava, ou melhor, rodava sozinho por aquela calçada, só sei que vinhaem minha direção, com as mãos empurrando as rodas, numa velocidade cruzeiromediana, quando, há uma distância de apenas cinco metros, olha pra mim com carade “Sai da frente!” e espera nitidamente que eu mude o meu curso. Dei-lhe umatrombada e quase cai de braços abertos por cima do atrevido filho da mãe. Ondejá se viu, só por que está numa cadeira de rodas acha que pode passar por ondequiser, e os outros que se lixem. É verdade que eu quase quebrava meu joelho,mas o velho teve que agüentar o meu peito contra a sua cabeça. Deve tá sentindoo cheiro gostoso do meu perfume até hoje. Mas o pior de tudo é que ele, o donodo mundo, ainda me xingou, me chamou de felá da gaita. Mas que diabo é felá dagaita? Deve ser um daqueles palavrões do tempo que a Pedra da Galinha Choca, emQuixadá, ainda era um ovo. Mas tudo bem, o importante é que, de uma forma ou deoutra, ninguém me vence nesse negócio de disputar um lugar na calçada.
E você aí, também é do tipo que quando vê alguém vindo nacalçada, na sua direção, também faz de tudo para não ceder o lugar? Cuidado, agente pode ser encontrar por aí. E se isso acontecer, muda de lado, que o meulado é meu.
William Lial, escritor (poeta, cronista e contista), autor dos livros "Sombras", "Noturno", "O mundo de Vidro", e do blog William Lial.
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