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28.11.09

Eu no O que elas estão lendo!?


Ontem foi publicada minha dica de livro no O que elas estão lendo!? Qual a dica? Clique aqui e confira. Bom fim de semana!

26.11.09

William Lial no Crônicas dos Outros


Sobre a calçada


A calçada era estreita, e eu já estava nela há, pelo menos,cinco minutos. Nada mais sensato do que eu possuir prioridade sobre ela. Então,displicente como bicho-preguiça, arrastando os pés, olhando em frente, semolhar nada, vejo um homem caminhando em minha direção, ocupando a mesma calçadaque eu, o mesmo lado da calçada que eu. Ele vai mudar de lado, claro ― pensei.Estávamos a uns dez metros de distância um do outro, ou seja, faltava poucotempo para uma colisão, se o dito cujo que se intrometera na minha calçada nãomudasse de lado. Daqui não saio ― resmunguei ―, cheguei primeiro. Mas o intrusonão dava sinal de que sairia da minha frente. Possivelmente até já havia mevisto e estava preparado para uma disputa. Quem ele pensa que é, um gladiador? ―murmurei já azedando. Nem que ele esbarre em mim eu mudo meu rumo. Canalhaintrometido, tanto lugar na porcaria desta calçada e ele vem logo na minhadireção.

Já pronto para o jogo de quem pode mais, eu mantinha opeito estufado, viril, macho até a raiz dos meus cabelos ausentes. O inimigoparecia fingir que não me via, obviamente uma tática cínica para não mudar delado e me enfrentar. O babaca está achando que eu sou um mané ― confidenciei-meentre os dentes trincados. Quero o ver passar por cima de mim. Deve estarcrente que eu vou me acovardar, esse esmilinguido duma figa.

Agora a distância para a colisão não era mais do que trêsmetros, e o desgraçado vindo, braços balançando como duas gangorras laterais,pernas abertas como uma vítima de assaduras nas partes e a cabeça pro lado,feito um garoto propaganda de cuecas. É agora ― arranhei os dentes, ereto,bravo, de olhos vidrados, coração saltando, boca de vale-tudo, punhos cerradose muita disposição para o que viria; enquanto o esmilinguido caminhavainvertebrado, blazè, com cara de “Tô nem vendo!”.

E assim nos aproximamos um do outro, cada vez mais, cadavez mais, centímetro a centímetro, segundo a segundo, feito dois guerreiros depaíses inimigos, dois gorilas disputando a fêmea, destemidos, prontos a darnossas vidas pela calçada, até que, olho no olho, já sentindo o cheiro fétidodo inimigo, ombros prestes ao impacto, dei meio passo para a direita e o Zé Relaum passo inteiro para o sentido contrário. Ainda tocamos os ombros, levemente,mas eu, claro, venci. Eu sabia ― vibrei por dentro com um sorriso vitorioso noslábios ―. Ganhei do salsichão por meio passo. Aqui não tem pra ninguém, rapá ―ainda me gritei por dentro ―, a calçada é minha! E continuei meu caminho semolhar pra trás, que é assim que um homem de verdade faz, após uma disputa de vidaou morte, ele segue sem medo de traição, por que olhar pra trás é sinal demedo, de covardia, e gladiadores não atacam pelas costas. É assim que é, eassim que sempre será.

Jamais, em toda a minha vida de calçada, perdi uma disputadessas. Pode ser grande ou pequeno a calçada é minha. Tem gente que pensa que édono do mundo, anda numa calçada e não arreda o pé quando vê alguém no sentidocontrário, mas comigo não tem essa não, apareceu na minha frente vai ter quemudar de lado. Teve até uma vez que uma senhora de uns setenta e dois anoscaminhava sozinha na calçada que eu estava e não mudou de lado até que euesbarrasse nela e gritasse Vê se olha por onde anda, matusalém! E a velha aindateve o desplante de me sacudir o guarda-chuva bufando um palavrão que sóconsegui entender o final: ... duma égua. Ora, ora, acha que só por que foibatizada por João Batista tem mais direito a calçada do que eu. Ah, e teve também um senhor numa cadeira derodas que quase me quebra o joelho, o barbeiro. Não sei por que raios aquelesenhor andava, ou melhor, rodava sozinho por aquela calçada, só sei que vinhaem minha direção, com as mãos empurrando as rodas, numa velocidade cruzeiromediana, quando, há uma distância de apenas cinco metros, olha pra mim com carade “Sai da frente!” e espera nitidamente que eu mude o meu curso. Dei-lhe umatrombada e quase cai de braços abertos por cima do atrevido filho da mãe. Ondejá se viu, só por que está numa cadeira de rodas acha que pode passar por ondequiser, e os outros que se lixem. É verdade que eu quase quebrava meu joelho,mas o velho teve que agüentar o meu peito contra a sua cabeça. Deve tá sentindoo cheiro gostoso do meu perfume até hoje. Mas o pior de tudo é que ele, o donodo mundo, ainda me xingou, me chamou de felá da gaita. Mas que diabo é felá dagaita? Deve ser um daqueles palavrões do tempo que a Pedra da Galinha Choca, emQuixadá, ainda era um ovo. Mas tudo bem, o importante é que, de uma forma ou deoutra, ninguém me vence nesse negócio de disputar um lugar na calçada.

E você aí, também é do tipo que quando vê alguém vindo nacalçada, na sua direção, também faz de tudo para não ceder o lugar? Cuidado, agente pode ser encontrar por aí. E se isso acontecer, muda de lado, que o meulado é meu.

William Lial, escritor (poeta, cronista e contista), autor dos livros "Sombras", "Noturno", "O mundo de Vidro", e do blog William Lial.

Imagem google images

25.11.09

Concurso de contos e microcontos.


O post de hoje é divulgação para uma excelente iniciativa da Bel do Quer ler? Eu deixo! Como eu pratico, apoio e luto por excelentes iniciativas :-) venho contar aos meus leitores que a Bel resolveu promover um concurso de contos e microcontos para comemorar os 04 anos de blog. O O concurso é sério com regras bastante claras que passo a transcrever. 'Bora participar.?




1. Dois livros serão dados como prêmio a quem enviar para mim o MELHOR CONTO, em duas categorias: CONTO e MICROCONTO.
1.1 Na categoria CONTO, o máximo são duas laudas A4, fonte Arial 12, espaço simples.
1.2 Na categoria MICROCONTO, o máximo são 140 caracteres, incluindo a hashtag #microcontos, então 128 caracteres onde possa ser lido um conto, em qualquer estilo.
1.3 Os MICROCONTOS que não atenderem plenamente à única exigência (128 caracteres) serão automaticamente desclassificados.
1.4 Os CONTOS ou MICROCONTOS podem já ter sido publicados em blogs dos seus autores, mas não podem ter sido publicados em sites especializados em literatura ou quaisquer sites de terceiros ou ter sido premiados em concursos anteriores, bem como não podem ter sido publicados em livro impresso.

1.5 Cada participante pode participar com até 04 (quatro) CONTOS ou MICROCONTOS. (Tudo é 4 nesse concurso!)
1.6 O júri será formado por mim, eu, eu mesma e Irene, (4 pessoas no júri!) não cabendo recurso quanto à decisão final.
2. Dois livros serão sorteados entre os demais participantes das duas categorias, através do site Random.org, no dia 29/11/2009, sendo numerados pela ordem de chegada dos CONTOS e MICROCONTOS.
3. O prazo de recebimento dos CONTOS e MICROCONTOS se inicia a partir da publicação deste post e encerra às 23:59h do dia 26 de novembro de 2009, horário oficial da Bahia (não-horário-de-verão).
4. Não existe qualquer impedimento à participação de amigos, familiares, leitores, patrões ou empregados da blogueira que lhes escreve, uma vez que os participantes certamente estarão numa dessas categorias.
5. Os participantes podem ser blogueiros ou não. Os blogueiros que divulgarem o concurso cultural em seus blogs também serão contemplados com um prêmio surpresaRandom.org, no dia 29/11/2009, sendo numerados pela ordem de chegada da informação da publicação dos respectivos posts de divulgação. a ser sorteado através do site
6. Os vencedores e sorteados receberão seus prêmios em sua residência, via correio.
7. Não há taxa de inscrição, isto aqui é pra vocês ganharem presentes, não pra eu ganhar dinheiro!
8. Os quatro melhores CONTOS e os dez melhores MICROCONTOS serão publicados nesteblog na semana de 30/11/2009 a 04/12/2009, sendo dados os devidos créditos aos autores.
9. Ao enviar o seu CONTO ou MICROCONTO para participar desde concurso cultural, o autor estará automaticamente concordando com as regras aqui explicitadas.
10. Após a participação nesta promoção de aniversário do Deixo Ler, os autores têm total liberdade de publicar seus contos onde bem entenderem, não tendo o Deixo Ler qualquer direito autoral sobre eles. No entanto, conforme acordo posterior, pode-se aventar a hipótese de publicar em papel um livro com a coletânea dos CONTOS e MICROCONTOS participantes.
11. Quaisquer dúvidas serão dirimidas em tempo oportuno, com updates neste post.



Imagem daqui


UPDATE : os contos devem ser enviados para deixaler@gmail.com

24.11.09

A idade que nos pesa


Outro dia entrei no metrô e estava ao meu lado no carro uma antiga atriz de comédias que era belíssima na juventude. Seu rosto , tantas intervenções cirúrgicas, tinha a pele fina como papel de seda. As mãos, pobrezinhas denunciavam a idade avançada.

No mesmo dia, falava com minha mãe , que se queixava da velhice. Dizia estar " velha e encarquilhada, além de tudo, inconformada" Durona que sou, desconversei, afirmando que todo mundo envelhece. Minha mãe já tinha resposta na ponta da lingua. " Quero ver quando for a sua vez de não se reconhecer no espelho".

O encontro no metrô, a conversa narrada acima e o texto que li outro dia no blog Futuro do Presente, no qual Ana Claudia Bessa questionava os produtos que prometem milagres contra o envelhecimento colocaram minha cabeça para funcionar.

Apesar de aparentemente refratária aos queixumes da mamãenão tenho como saber como será na minha vez de não reconhecer-me no espelho. Confesso que fico levemente amendrontada ( a expressão frio na barriga serve para descrever bem o que sinto) e, ao mesmo tempo , bastante nostalgica quando penso no assunto.

Este neócio de envelhecer é bastante complicado. É tão fácil acostumar-seà juventude. Nascemos frescos, corados, cheios de energia. Assim permanecemos por algum tempo, mas tão pouco. Passa ( mesmo) tão rapidinho. E logo chega a maturidade, o tempo que temos para nos acostumarmos com a velhice iminente. É a nossa última chance. Ou isto ou ficar velho como a minha mãe, na base da rebeldia.

E quem a conhece sabe que reclama de barriga cheia. Afinal, só começaram a aparecer rugas depois dos 60 anos. Rezo todos os dias para fazer jus a esta fração do seu DNA . Agora, aos 66 está muitíssimo bem, no melhor estilho " Mas você não aparenta!"

Mesmo bancando a durona, compreendo minha mãe. Não é fácil, mesmo, envelhecer. Deixar para trás os bons olhos, o vigor, o fôlego, boa parte da energiapara ganhar, com muita sorte experiência de vida e, com certeza, marcas no rosto. A única coisa que eu não consigo entender é essa compulsão por juventude de aparência, impulsionada por artifícios como botox e cia ltda. Se a idade chega, e chega mesmo, não seria melhor entregar os pontos de cabeça erguida?

* Na Imagem do google images , Madonna faz de tudo para não envelhecer.

20.11.09

Selos e memes e coisas assim


Há meses eu venho postergando o preparo deste texto por vários motivos. O principal : falta de tempo, uma boa desculpa. Vou falar na lata logo tudo de uma vez. Desde março, quando comecei a escrever meu livro,   eu não respondo memes e selos tão carinhosamente concedidos ao Fio. E, em março, eles já estavam atrasados. Invejo quem consegue organizar isso tudo numa página linda ou num slide - durante um tempo eu tentei-, ah, como invejo. Mas, não dá. Tenho uma programação e ideias para escrever semanalmente. Algumas colunas estão inativas e logo retornarão. Não consigo elaborar posts sobre memes e selos.

É sempre bom assumir as dificuldades. E eu tenho esta dificuldade de passar adiante selos e memes. Decidi então continuar aceitando carinhosamente tudo que me enviarem como tenho feito mas , reservar-me ao direito de não mencionar no blog em forma de posts. Agradecerei na postagem no blog do amigo que me acalentou com o o presente e peço desculpas por isto. Mas, eu não consigo organizar tanta coisa, mesmo. Não com tão pouco tempo para escrever.

Alguém pode dizer: Mas o Fio tem um selo - o Leitura Recomendada - e passa ele adiante. Bem, o selo leitura recomendada é apenas uma ilustração para  o post especial de recomendação de blogs. O indicado não é instado a passar adiante como uma corrente. Bem gente, espero que compreendam , eu acho lindo selos e me divirto com memes mas nem sempre eu consigo seguir suas regras. Isso sem contar que minha memória é um desastre. Se eu insistir em fazer algo que foge a minha capacidade, darei com os burros n'água. ( ainda se usa essa expressão?)

Antes de terminar, eu falei que enviei uma carta para mim mesma num post anterior e preciso aproveitar para esclarecer. Foi verdade. Eu troquei os adesivos de destinatário e remetente, pedi um sedex, paguei e conferi o recibo.Posso , como já disse , colocar a culpa em uma série de coisas, entre elas uma dor horrível de cabeça por causa de uma sinusite. alguma culpa também deve ter a  atendende da loja dos correios perto de casa. Ela  é uma chata de galocha - este termo ainda existe? - que fica tentando empurrar cartelas da telesena ( alguém ainda compra aquilo) com voz de falsete. A culpa de tudo só pode ser dela, é claro  Doravante procurarei funcionários simpáticos, sei que eles existem, mesmo que tenha que mudar de loja. 
 Um beijo e bom fim de semana.

* imagem dos selos olho de boi , os primeiros a serem criados no Brasil. Naquela época selos eram usados em cartas, na sua maioria, pessoais. ( Alguém ainda escreve cartas?)

19.11.09

Enquanto Esperamos no Crônicas dos Outros




Diariamente, tento aproveitar os intervalos que Laura me concede para assistir alguns programas na televisão ou prosseguir em uma leitura de livro ou revista. Tenho minhas preferências, detesto ficar passeando aleatoriamente entre os canais da tv e divagando entre as capas nas livrarias e bancas. Já sei os horários de meus programas preferidos, já sei quando saem as revistas que gosto, já tenho meus autores escolhidos (apesar de que, para este item ainda me sinto muito crua e portanto procuro alimentar a paciência e a curiosidade). Assim, hoje, pela manhã, como Laura me deu uma rara e longa folga, enquanto dormia, me deparei com duas afirmações em dois programas, que a mim serviram de tremenda luz e inspiração!

Quem me conhece de perto sabe que vivo às voltas com as questões da identidade materna, bombardeada pelas expectativas da família de meu marido de um lado e por minha tumultuada história familiar por outro. Soma-se a isso minha quase compulsão por sentir-me aprovada e reconhecida pelos meus pares e a surpresa de ter engravidado de repente! Por isso, quando escutei a resposta de Madonna ao David Latterman, esta manhã, sobre se teria melhor ofício no mundo do que ser mãe (tendo em vista que, sendo quem é, optou por ser mãe de três e ainda desejosa de adotar mais), fiquei tão empolgada. Ela respondeu com sua irreverência que, é claro que sim! Disse que não trocaria a maternidade por nenhum outro ofício, mas que esta é uma tarefa muito difícil. O mais interessante foi ter devolvido a pergunta com outra: “Do que ser mãe? Apenas mãe?”. Confesso que uma afirmação tão contrária ao mito da maternidade perfeita / feminilidade ideal faz jus a persona polêmica que Madonna incorpora, mas agradeço sinceramente que ela possa dizê-lo com tanta honestidade o que para outras mulheres parece tão impróprio apesar de verdadeiro.

A segunda afirmação que me impactou esta manhã veio de Mônica Valdwogel, no programa Saia Justa, quando as apresentadoras discutiam sobre a dissimulação. Ela disse algo sobre a fragilidade do dissimulado. O dissimulado precisa sê-lo porque sente necessidade de impressionar o outro, e às vezes sua atuação é tão perceptível que é possível sentir pena dele. Uns sentem raiva e querem desmascará-lo, mas há quem enfatize sua fraqueza e se penalize. Não decido sobre que atitude é melhor diante de um dissimulado, porque há tantos de tantos tipos, que para cada um cabe uma sentença. Mas, esta afirmação veio ao encontro da questão sobre a identidade materna, com a qual tenho lutado tanto desde a gravidez. Tenho a impressão que muitas mulheres se acostumam a viver em busca da aprovação dos homens e das gerações anteriores, especialmente no quesito maternidade ideal. Elas se submetem com enorme investimento afetivo a um ideal de mãe que se satisfaz plenamente em suprir as necessidades de seus filhos e que supera de longe qualquer tentativa dos homens em participar do desenvolvimento deles. Se por um lado, “não basta ser pai, tem que participar”, por outro, “mãe só tem uma”. Ser mãe já define tudo. Ser pai é uma construção. É como se já existisse uma fôrma na qual, nós mulheres, temos que nos apertar, ainda que para isso usemos a dissimulação.

Talvez por isso, quando uma mulher foge radicalmente do padrão ideal herdado por sua família e pela comunidade em que vive é penalizada. Talvez porque minha mãe tenha exercido uma identidade tão diferente, tão singular, um dia escutei a mãe de uma amiga da escola dizer “Diana, você nunca podia ter sido mãe!”. Nunca esqueci dessa frase, fiquei muito intrigada com ela. Porque, se ao comparar com os padrões tradicionais, minha mãe se destaca negativamente, comparando nossa relação com a hipocrisia com que várias amigas se relacionavam com as suas mães, eu preferia ser como ela. Ela não se esforçava para dizer o quanto era maravilhoso ter filhos, nem se privava de desabafar, durante minha adolescência, que, depois de quatro filhas, já estava cansada e que nós tínhamos que amadurecer logo para sermos independentes. Seu afeto por nós é rasgado, livre e transparente. Ela foi deixando claro ao longo de nossa criação que ser mãe não é o melhor ofício do mundo, e que ela estava muito longe de ser o ideal que o mundo parecia pregar.

Existe uma dissimulação necessária, como discutido no programa Saia Justa, mas será que ao incorporar a identidade de mãe, precisamos dela? Será que não podemos, honestamente, abrir o verbo e dizer o quanto a maternidade nos priva de prazeres e nos invade sem pedir licença? Será que não é mais forte a mãe que sabe admitir que não pretende suprir todas as necessidades de seu filho, que tem suas limitações, e que apesar de assumir sim a responsabilidade de criá-lo, precisa da participação de um outro que assuma igualmente a tarefa? Penso que é mais saudável para mãe e filho terem a clareza de que há um mundo de possibilidades além dessa relação primordial, que ela não é a plenitude para a mulher nem a fonte única para a criança. Que é possível explorar formas diversas de ser mãe, sem impor privação irresponsável aos filhos, mas também sem oprimir e subestimar a identidade da mulher.

A crônica desta semana é de @CarolinaPombo , mãe da Laura, psicóloga, mestre em Saúde Pública e editora do blog Enquanto Esperamos 
Envie sua crônica que o fio publica. Saiba como aqui 
*imagem daqui

18.11.09

Blogagem Coletiva - República, pobre moça


Eu poderia explicar que minha sexta feira 13, foi 13 mesmo. Que o fim de semana foi bem tumultuado. Que eu resolvi confiar demais na minha cabeça e que vinha chegando uma sinusite que não me deixava pensar. Posso contar que cheguei a colocar no correio uma carta para mim mesma, já que troquei os endereços de destinatário e remetente. Ela chegou ontem. Eu poderia dar mil explicações e mesmo assim não teria desculpas. Logo eu, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa, esqueci que havia blogagem coletiva, cujo selo coloquei no blog, cujo texto já havia esboçado. Diogo, mil perdões. Mas vai aí outro texto junto com o pedido de desculpas.

República, pobre moça 

A verdade é que eu esqueci. Esqueci não da blogagem, eu estava com meu texto bem adiantado. Esqueci da data. Deu branco, eu poderia dizer. E deu branco mesmo. Deu branco no significado da data. Dia 15 de novembro caiu no domingo, não houve feriado e não aconteceu nada que me lembrasse. E olhe que eu li o jornal de domingo. Não lembro de matéria sobre o tema. Será que passou batido. Será que ninguém lembra mais?

Os cientistas sociais podem ajudar a explicar nossa falta de memória, eu não sou a pessoa mais indicada para isso , mas que ele, o esquecimento , existe por aqui, isto existe. Vivemos uma república que não lembra de sua história e por conta disto não se preocupa com o presente e mal cogita a existência de futuro. Tenho alguma tristeza ao perceber que os ideiais da república não eram maiores que a sede de poder de uma classe armada. Igualmente triste verificar que durante toda a história desta moça, a República, dificilmente foi diferente. Fosse armado ou civil, seu condutor nada mais queria que um trono a ocupar, ainda que não existissem  mais tronos.

A moça República, nunca foi bem compreendida. Significante de um novo mundo, sem grilhões, senhores ou escravos, bastou ser ocupada, utilizada, malversada, expoliada, para fazer a felicidade geral. República, nossa moça, sem querer, nasceu da vontade de  muita gente ser rei através de revezamento.

Toda vez que foi lembrada com festejo, bem entendido, aconteceu de ser por interesse puro e vil. Propaganda da causa, não da moça. Demonstração de força: "Nós temos a moça". Coitadinha desta menina, pobre moça.

E eu confesso, consigo me lembrar de algumas vezes em que vi muita gente ser enganada em nome da moça e o povo todo acreditar que viria um namorado carinhoso , afagar sua face e enxugar seu pranto.  Abandonada a própria sorte, a  República continua servindo  a todos eles., resignada.  Pobre moça. Tão jovem e com tanta vida pela frente e tratada como algo já sem valor e assim, tão esquecida.

Este é meu arremedo de postagem para a Blogagem Coletiva promovida por Cachorro Solitário. Como penitência pelo esquecimento da data correta do post, publico a lista com os blogs participantes, o que no final das contas, é um prazer. Ainda hoje visitarei todos e deixarei meus comentários.

O Brasil que queremos - Lado U

Delírios de uma professora (ou o sonho de uma res que seja pública!) - Profe Elaine

O Brasil de Amanhã - Ponderantes

República Imperial - Filosofar é Preciso

Crianças cantam o hino nacional brasileiro – Sakuxeio

O Brasil e a crise de autoridade - Enquanto Esperamos

Os Mapas do Brasil - Cachorro Solitário

Drops Cultural da Banharoli – Sempre pratique cidadania - Contemprartes

Brasil, um sonho de loucos [Blogagem coletiva] - Óculos de Longo Alcance

E viva a República - Dea e o Mundo


16.11.09

Dr . Filho




Algumas coisas o sujeito nasce sabendo. Osmar sempre soube que seria médico. Desde sempre, quando ouvia a perguntinha clássica : " O que você vai ser quando crescer?", Osmar respondia: "Médico." É preciso dizer que estudou muito, também,  desde sempre. Aos 10 anos matava aula de desenho para ir ao consultório  do Dr. Nepomuceno decorar os fármacos. Aos 12 já havia lido mais livros  sobre primeiros socorros do que seus amigos de escola haviam lido gibis. Seria médico, não havia dúvida.

Estudou com afinco até os dezessete anos, quando passou no vestibular. E  de primeira. Queria tanto aquilo que nada poderia evitar o que era absolutamente inevitável, pensava. Ouquase. Mas o certo é que nem mesmo seu genitor, Dr. Osmar Pai, foi capaz de dissuadí-lo. Dr. Pai era advogado , banca vastíssima, bem conceituada. Imaginou, ao ver o filho pela primeira vez no berçário, deixar como herança ofício  e nome bem construídos. Mas o infeliz quis ser médico, e a mãe queria o infeliz feliz. Não houve conversa. Entrou para cursar medicina. E o Dr. Pai do  Dr. Filho único calou.

Osmar , o filho, venceu as primeiras semanas de trotes na faculdade emdisciplinado silêncio.  As humilhações passadas na mão dos colegas não abalaram sua força interior. A certeza o compelia a esperar pelo melhor : as aulas e um sonho a realizar: o diploma. O diploma e um sonho maior : a cirurgia.

Numa manhã quente de fevereiro, porém, alguma coisa aconteceu que obscureceu dezessete anos de certeza absoluta. Ou quase. Osmar Filho descobriu, depois de alimentado o sonho de uma vida inteira, que não suportava as aulas do laboratório de anatomia. Os cadáveres a serem dissecados, o formol, os crânios, os órgãos internos cuidadosamente guardados em potes que lembravam os de geléia... Tudo aquilo lhe causava um mal estar insuportável.

A primeira aula só foi assistida depois de fixar um ponto na parede e não tirar os olhos de lá. O professor não notou por causa dos óculos e suas lentes grossas, mas Osmar verteu um pranto invisível enquanto convencia-se de que apesar da dificuldade, seria médico, não havia a menor dúvida. Ou havia?

Daquele dia em diante a certeza de antes deu lugar a uma tristeza , uma profunda decepção. Osmar, o filho, sentia-se massacrado pelo peso do que entendia como sua própria incompetência. As aulas tão idealizadas transformaram-se em pesadelos dos quais não era possível acordar. Era preciso muita concentração e óculos escuros para participar dos debates. Desde então, nem mesmo ao açougue Osmar podia ir sossegado. Ao olhar as carnes penduradas saía correndo aos engulhos dizendo que tinha esquecido de dar um telefonema. Virou vegetariano, passando a estudar com mais afinco do que antes. Invejava os outros alunos, tão á vontade com o sangue, as vísceras, a pele fria.

Foi torturante mas Osmar, o filho , prosseguiu em seus estudos desenvolverndotécnicas de autocontrole que  fariam inveja a psiquiatrias experimentados. Ao final do segundo ano, transitava, já sem suores, pelos laboratórios e aprendeu a suturar. Emagreceu por nada parar mais no seu estômago, nem mesmo a clorofila. Osmar, o filho era teimoso e encontrava consolo no fato de que haviam disciplinas que dominava sem enjoar. Psicologia médica  e farmacologia passaram a ser a razão de seu viver juntamente com a obsessão em tornar-se cirurgião.

Aconteceram tropeços. Passou mal enquanto estudava um fígado. Pediu desculpas e saiu cambaleando com a face esverdeada. Se alguém notou, não comentou. Osmar, o filho, andava sempre esverdeado. O susto maior, contudo, foi a brincadeira feita por um colega de da Anatomia, o Adamastor. O futuro doutor colocou um braço na mochila de Osmar que desmaiou quando encontrou o membro gelado junto do seu notebook. Nunca mais foi levando a sério e o apelido Donzela o seguiu até o fim do curso. Mas fim é algo que sempre chega. E na formatura a mãe orgulhosa chorou copiosamente enquanto Dr. Osmar, o pai, assistia ao fim do seu sonho. Dr. Osmar, o filho, conseguira o canudo e uma vaga na residência de cirurgia em um grande hospital .

O novo curso transcorreu sem  grandes sobressaltos e o vegetariano Dr. Osmar Filho conseguiu , aos 26 anos tornar-se cirurgião geral. Realizou, durante um ano, cirurgias de emergência e salvou algumas vidas. Ao fim do ciclo solar de 365 dias, Dr. Osmar, o filho, matriculou-se em outro curso de especialização por mais dois anos.

Hoje, até mesmo Dr. pai precisa admitir que o infeliz é feliz. Pendurados na sala de espera de seu consultório, estão algumas gravuras de  Gauguin e o diploma de médico. A placa na porta diz: Dr. Osmar Filho - homeopata.





* imagem da tela  Café em Artes de Paul Gaugin ( 1876- 1903) tirada do Wikipedia



14.11.09

Era uma vez a brincadeira


Estou engatinhando neste negócio de maternidade. Tá, tudo bem. Já passei da fase do engatinhar, estou andando meio trôpega, e falando enrolado. Afinal, meu filho já está com dois anos. A novidade agora são os convites para as primeiras festinhas infantis em décadas e minha perplexidade diante deste novo mundo.


Eu não sabia como funcionava a dinâmica de uma festa infantil. Fizemos as duas festinhas do Ernesto somente para a família; coisa pequena para o pequeno. Então, na primeira comemoração como mãe de convidado, procurei uma lembrança que fugisse ao  industrializado. Achei uma linda bonequinha de pano embalada para presente num saquinho de juta e fui descobrir a vida como ela é.


E a vida mudou. Não existem mais muitas festinhas como as que eu costumava frequentar. na infância.  Está certo que hoje também não existe mais  o Playmobil da Trol e o gosto da bala tofee mudou . Tudo muda com o tempo.  Mas desta vez fiquei assustada. A festa parecia um parque de diversões miniatura com pais atarantados correndo atrás dos bebês cheios de energia. Em uma caixa num canto do salão uma quantidade de brinquedos capaz de alegrar um orfanato inteiro, por meia dúzia de natais.


Será que aquele lindo bebê aniversariante precisa mesmo de tantas coisas assim para desenvolver-se pleno e feliz? Caberão todas aquelas coisas no seu armário? Haverá alguma estante onde possa repousar a nova bonequinha de pano? Criança ainda brinca com bonequinha de pano?


Acredito que brinque, que deva brincar. E minha crença vai além. Acredito em brinquedos feitos de sucata e artesanato. Brinquedos sem industrialização. E, sim, eu sei que existem inúmeros produtos educativos especificados por idade daquela marca famosa. Eles são interessantes. Mas prefiro imaginar - palavrinha boa esta -  que aprendizagem maior virá do toque em materiais simples, formas criadas do nada, ou de pouco. Quem nunca fez um robô de rolos de papel higiênico, um bonequinho de potinhos de iogurte ou carrinhos com caixa de fósforo embalados em papel brilhante corre o risco de ter perdido alguma coisa da infância. Alguma coisa boa e colorida.


Toda criança gosta de ganhar presente. Até aquele bebê, dono da caixa de brinquedos lotada no canto do salão de festas, que nem sabe ainda para que serve aquilo tudo, gosta de brincar. Mas, será que não caberia uma reflexão acerca da complexidade da vida dos nossos filhos a esta altura do campeonato? Será que um bolo gostoso e brincadeiras, um passeio entre amigos, uma tarde no cinema não seria mais proveitoso ? Perdoem o desabafo, comecei a escrever e acabei sonhando um mundo mais simples.


* Leia outros textos sobre vida sustentável e crianças em Ecoblogs

* imagem do blog da ilustradora Andréia Vieira

13.11.09

#LuluzinhaCampRJ


Não se espantem. Preparei um post para hoje mas a sexta-feira 13 foi puxada aqui. Nada grave, mas a data não passou em branco e quase tudo o que eu havia planejado simplesmente não aconteceu. Resta-me o sábado 14 e o domingo 15. Nada como o dia de amanhã e o depois de amanhã para esquecer o de hoje ...



E por falar em amanhã, neste sábado participarei do Luluzinha Camp RJ 3, um evento que reúne mulheres blogueiras com muitas coisas que interessam às meninas. É uma excelente oportunidade de conhecer as editoras de páginas lidas diariamente, algumas conhecidas da net e também pessoas novas. 


Estou envolvida com um projeto junto com minha mãe que é artesã. A ideia original era lançar um blog de artesanato antes do Luluzinha Camp mas, não conseguimos. O post previsto para hoje apresentaria o novo blog. De todo modo amanhã, o Fio de Ariadne participará com um lindo presente ( foto acima) a ser sorteado no fim do encontro entre as Luluzinhas e em breve apresentaremos o novo espaço virtual.


Na próxima semana eu conto os detalhes do encontro com as Luluzinhas.

12.11.09

Rato de Biblioteca no Crônicas dos outros


OS “PSEUDO-TÍMIDOS”



Outro dia li uma crônica de Clarice Lispector sobre os tímidos, que têm vergonha de viver. Ela se classifica entre os tímidos ousados, que apesar de sua incrível timidez são capazes de gestos audaciosos, atiram-se ao desconhecido, voluntariam-se para situações inusitadas e inesperadas.

Não sou tímida. Não sou ousada. E detesto classificações, apesar de adorar a análise e observação dos seres humanos, seu comportamento, suas causas e consequências, a importância do contexto, do ambiente, das pessoas que os cercam e como tudo isso junto explode em uma salada maravilhosa que é um ser humano único e imprevisível.

Há pessoas que são realmente tímidas. Outras, apesar de não o serem, aparentam timidez. Por quê? Arrisco alguns palpites: Por exemplo, é mais fácil “ser tímido”; isso me poupa de muita situação embaraçosa (escrevo na primeira pessoa para facilitar os exemplos, não me classifiquem, por favor). Se sou “oficialmente” tímida, ninguém espera que eu cante na apresentação do colégio, nem que eu me candidate a presidente de qualquer clube, grêmio, associação ou seja lá o que for. Não esperam que eu me destaque em nada, e essa expectativa diminuída a meu respeito me livra de muita ansiedade inútil. Isso não impede que eu me arrisque; se eu tiver sucesso, será uma surpresa para todos, pois ninguém o espera. Portanto, ninguém cobra.

Outra vantagem: dos ousados espera-se grandes atitudes, grandes e fortes opiniões, enquanto que aos tímidos nem se pergunta a opinião, oh, ela vai ficar encabulada, além do que, será que ela tem alguma opinião? Isso me dá a oportunidade de manter minhas opiniões (sim, os pseudo-tímidos têm opinião!) para mim mesma; isso é muito conveniente, especialmente em assuntos espinhosos, lugares de convívio público como o ambiente de trabalho, ou as duas coisas juntas.

Quando uma pessoa “atirada” toma uma atitude de vanguarda, as pessoas pensam: “Lá vai ele de novo!” e observam, esperando o sucesso (Ele teve coragem e se deu bem) ou o fracasso (Quem mandou se meter nisso, eu sabia, não podia mesmo dar certo). Nas primeiras vezes isso choca, mas com o tempo esse tipo de atitude é esperada dessas pessoas. Lembram-se das feministas dos anos 60 e 70? Das primeiras pessoas que resolveram viver de modo diferente? Daqueles que largaram “tudo” e foram trabalhar em outra coisa, ou fazer o que queriam?

Se um pseudo-tímido tomar uma atitude de vanguarda, não se assustem: ele sabe o que está fazendo. Pensou bastante, e decidiu que é exatamente isso o que quer. Diferentemente dos tímidos, que geralmente estão agindo por impulso.

Mas uma coisa é certa: tímidos, ousados, pseudo-tímidos, de qualquer modo que sejamos, na hora de enfrentar o desconhecido é normal sentir aquele friozinho na barriga, afinal, somos humanos; no fim da estrada pode estar o sucesso ou o fracasso, mas com certeza aprenderemos com a experiência. Teremos feito nossas escolhas. E teremos vivido.

Pois duro mesmo é se arrepender de não ter escolhido.


A Crônica desta semana é de Cristine Martin ( @ratodebiblioteca no twitter), tradutora , escritora e editora do blog Rato de Biblioteca .

Drops



Apenas três palavras .
Separadas não fazem grande coisa.
Juntas quebram monopólios, constróem impérios, movem montanhas.
Dizer "eu te amo", para alguns é tão fácil quanto tomar um táxi.
Para outros,  um bloqueio que impede  fazer feliz a quem amam. 
E enquanto há quem superfature três palavrinhas há quem siga sonegando. 
Talvez fosse melhor não falar,  não esperar ouvir o dizer.
Talvez fosse melhor simplesmente viver. 

*imagem site MondoVR




10.11.09

Florinda



Florinda era caprichosa. Era esta a opinião geral e ela parece ter sido convencida pelo que todo mundo dizia. Essas coisas acontecem. O sujeito não sabe o que fazer da própria vida, um dia um desavisado acha que percebeu alguma coisa oculta atrás daquele eu. Publica sua opinião a ouvidos atentos . Está feito um engano que irá mundo afora como penas na ventania.



Voltando ao assunto, Florinda era caprichosa. Desde que o tal desavisado resolveu isto para ela, todos os seus desejos passaram a ser cumpridos à risca sob pena de serem impostos graves flagelos aos desobedientes. Além da opinião alheia, alimentava seus caprichos o fato de ser filha de abastado fazendeiro, o maior da região. Colheita de café carregada por empregados robustos.


Acostumada a ver quadros de Portinari através de sua janela, Florinda aos 19 anos resolveu - depois de embolar suas saias com o capataz da fazenda, o filho da cozinheira, um amigo do pai e três ou quatro secadores de semente - conquistar o único homem que não a olhava de baixo pra cima.

O vigário, não usasse batina, chamaria a atenção das beatas mais severas. A verdade é que apesar da batina sua missa lotava menos pelo sermão progressista que pelos olhos azuis brilhando por trás da pele morena. Padre por feliz imposição da família, o vigário descobriu sua vocação quando entrou a contragosto no seminário. Deixando a mãe chorosa e o pai feliz atrás da porta de carvalho firme fechada pelo capelão. Apresentado à filosofia, vislumbrou um mundo novo, o das idéias. Convenceu-se que a fé do povo poderia ser a mola mestra para a revolução.


O povo gostava do palavrado do padre. A maioria, contudo, acreditava que aquele discurso todo não mudariam as coisas. Patrão continuaria a ser patrão até o fim dos tempos . E empregado, continuaria a ser empregado. Mas, a missa era boa. E o modo de incutir sentimento politico no povaréu, por curioso que seja, era manso e não despertava atenção de quem mandava por ali. A vida do vigário seguia bem, até Florinda resolver fazê-lo de brinquedo.

Além dos domingos pela manhã, Florinda passou a sair para confessar todos os dias alegando estar passando por um período de meditação. Em casa ninguém estranhou. O que Florinda dizia era nada menos do que a verdade. No confessionário, contou todos os pecados cometidos atrás do celeiro da fazenda, na cocheira, no cafezal. Ao mesmo tempo passou a contribuir com sua mesada para as obras assistenciais. Sempre ao final da missa era a primeira a cumprimentar o padre por suas palavras. O detalhe é que, se fosse perguntada, não poderia repetir sequer uma delas. Limitava-se a levantar, ajoelhar e procurar os cânticos no livro toda vez que o povo fazia o mesmo enquanto maquinava atimanhas de sedução.

O assédio velado durou três meses sem que recebesse sinal do padre de que houvesse o mínimo interesse. Como noventa dias era muito mais tempo do que poderia dignar-se a investir num alvo, Florzinha, como era chamada pela mãe, resolveu atacar de frente. Um belo dia, ou melhor, uma bela noite apareceu na casa paroquial armada até os dentes para a guerra, batendo na porta avidamente.

O vigário, que já havia tomado sua sopa rala, feito as orações e preparava-se para dormir o sono dos justos, abriu a porta com uma vela na mão. Procurando refazer-se do espanto de encontrar a moça tão tarde da noite parada a sua porta, perguntou mansamente o que poderia fazer para ajudar. Florinda disse em apenas três palavras o que desejava. Como esperasse resistência, já possuia todos os argumentos e artimanhas cuidadosamente ensaiados para contra atacar. Acrescentou que não tolerava ver seus caprichos recusados, que todos sabiam que era assim que resolvia o que desejava. O padre calmamente sentou-se. Fez toda a argumentação dialética aprendida nos anos de seminário. Questionou as motivações e verdadeiros sentimentos e após três quartos de hora viu que não dissuadiria Florinda. Então, perguntou se ela assumiria as consequências do ato e, diante da cega afirmativa, levou-a para o quarto.

Antes do galo cantar, Florinda voltou para a fazenda triunfante. Passou a semana cantarolando canções inventadas, rindo de si e de todos. Os pais vendo-a feliz não fizeram perguntas. A ordem era satisfazer Florinda e, com toda certeza ela parecia satisfeita. No sétimo dia, pela manhã, anunciou seu noivado. Quiseram saber quem era o noivo, a que família pertencia, o volume do patrimônio, se possuia educação elevada. Ao invés de fornecer informações, a Florzinha limitou-se a dizer que logo traria o felizardo para, aos costumes, fazer o pedido.

Naquela tarde saiu impecavelmente vestida para notificar o vigário de que, para o futuro, vigário não mais seria. A noite do pecado revelara, por certo, a ambos o verdadeiro sentido do amor. Quase certo. A porta da sacristia foi aberta por um velhinho. Usava batina e comunicou à Florinda que o antigo vigário obteve permissão para ir à Roma para aprofundar os estudos em filosofia canônica. Passara a incumbência de pastorear a cidadezinha ao velho padre que ali estava. Perguntou então à mocinha se gostaria de ser ouvida em confissão.


Florinda voltou para casa em silêncio. Assim permaneceu. Não falou sequer uma palavra sobre o ocorrido ou qualquer outra coisa. Logo parou de abrir a boca até mesmo para comer. Comenta-se que enlouqueceu de tanto capricho. "Florinda era caprichosa." É o que diz sua lápide.





Fim.

Imagem - Goolge images - Cândido Portinari - Mestiço (óleo sobre tela - 1934)





9.11.09

Abre Aspas - Blogagem Coletiva


"Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti..
."

Mário Quintana

Ideia da Lunna do blog Teorias Impossíveis , o Abre Aspas está em sua terceira edição.
A foto é do google images.


5.11.09

Diego´s Trips no Crônicas dos Outros


Crônicas dos Outros começa hoje com um texto do Diego Azevedo Sodré do Blog Diego's Trips.  Visite o blog do Diego e, se quiser participar, envie sua crônica que toda quinta o Fio publica. 


 A morena dos olhos verdes e mechas douradas


Hoje, percebe-se muito bem o crescimento do setor imobiliário no país, apesar da crise que assola o mundo globalizado. Quem consegue perceber isso bem são aqueles que faturaram uma grana preta vendendo seus terrenos, ou moram ao lado de construções –que é meu caso.

Pra vocês terem ideia, na minha rua foram e estão sendo construídos cerca de 7 novos edifícios. A tendência é esse número aumentar. E muito.

Antes desses edifícios, todo dia eu via a morena dos olhos verdes e mechas douradas passar na minha rua. Ela nunca sorriu pra mim, porém eu me transformava num enorme sorriso toda vez que a via.

A morena dos olhos verdes e mechas douradas, na verdade, planava pela calçada desnivelada e esburacada. Não havia um carro que não prestasse atenção em seus cabelos aos ventos, suas mãos tão pequeninas, suas curvas tão belas, suas covinhas tão vermelhas e sua estatura de mocinha; tudo isso ao sabor da contemplação e inveja alheia.

Os meninos da minha rua suplicavam e choravam por seu amor, e ela sempre dizia a mesma coisa, Não! Nenhum homem merece meu amor!

Acho que ela era especial por isso, pois ninguém conseguia faze-la de “peguete”. Ela era demais. Um anjo que veio me dar uma razão pra viver. Única. Eterna.

Com o tempo, o primeiro edifício ficou pronto e a menina dos olhos verdes arranjou um namorado. Era forte, ia pra academia todo dia, se gabava pelo que tinha, roupas de marca, a moto Kawasaki Ninja, a cobertura; saía sempre com os amigos pras raves e baladas, não ligava pra estudo, pois bastava ser como o pai: político. Era o par perfeito pra ela; afinal, os opostos se atraem.

Mais tarde, outro edifício ficou completo. Ela descobriu que o namorado a tinha traído com “uma outra vagabunda aí qualquer”. Pensou em terminar com ele. Se interessara por um carinha da Tijuca.

Com o terceiro, descobriu que estava grávida. Três meses. Deve ter sido numa balada aí da vida. Ela não tinha certeza de quem poderia ser o pai. O namorado não quis saber dela e do feto, terminou o namoro alegando que não ia dar uma de corno assumido. Ele podia ser burro, mas era esperto. Sua mãe defendeu que ela devia continuar com o bebê. O pai é interrompido durante o trabalho pela mãe e dá a sua opinião: “hmmm, faça isso, querida”. Está ocupado demais com os relatórios da empresa. Sempre.

Um novo edifício surgiu no horizonte, tampando o por-do-sol. A morena perdeu a mãe num assalto. E o pai, que vivia traindo a esposa nas viagens empresariais, entrou em depressão.

Antes de completar o quinto edifício, a menina olha pro horizonte pela varanda do apartamento. As estrelas, que antes coloriam o céu, passaram a dividir o lugar com as centenas de luzes dos outros apartamentos. Decepcionada com a vida, ela resolve bater as asas e fugir pra bem longe.

Dessa maneira, com o prédios, os carros, ônibus, motos, o sol, necessário para sarar as feridas, tanto da carne quanto da alma, foi tampado de vez. A minha rua passou a parecer um filme em preto e branco.

E a morena era o meu sol. Era a fuga das minhas frustrações. Apesar dos engarrafamentos, da poeira, da fumaça, das buzinas e das obras, tudo ficaria bucólico se ela estivesse aqui. Ela me deixou com uma ferida enorme no coração. Só ela poderia cicatriza-la...

Apesar disso, o show tem que continuar. Todas as noites, mesmo com vários prédios, eu ainda consigo ver um pedaço do céu. E lá eu fico até o sono me chamar, numa árdua, porém digna, missão: achar a minha morena dos olhos verdes e mechas douradas. Não posso vacilar a nenhum instante, pois, num pisque, ela pode passar e eu perdê-la de novo. Um dia eu a acho, tenho certeza. E ela irá sorrir pra mim.




3.11.09

Orgulho e Preconceito


Já ouvi gente dizendo que Jane Austen é uma autora de mulherzinha, de fofoca, de vila. Isto é absolutamente irrelevante; já ouvi gente dizendo todo tipo de coisa. Jane Austen deixou textos realmente incríveis. Especialista na construção de personagens e na sua retratação, impossível ler suas histórias sem ter uma perfeita imagen mental de tudo. A melhor parte é que o texto não se prende a detalhes estéticos mas aos detalhes humanos. A partir daí constrói-se toda a narrativa, brilhantemente.

Em Orgulho e Preconceito, que acabo de reler, Austen conta a história de um amor improvável. Um esnobe rapaz da corte londrina cai de amores por uma moça provinciana com nobres valores. Falando assim parece mesmo difícil de imaginar. Mas a autora nos conduz através do sentimento humano, aquele caminho que os defeitos do Sr. Darcy não são capazes de cruzar ilesos. Para nos convencer definitivamente que um homem muito rico e besta ( não consigo encontrar palavra melhor para definir Darcy) pode mesmo se apaixonar por uma moça simples, without conections, Jane resolveu criar uma das mais maravilhoras heroínas da literatura.

Elizabeth Bennet,Lizzy, a moça por quem Darcy se apaixona, é tudo o que todo mundo sonha para irmã, filha, namorada, nora, vizinha... Dotada de um bom senso incomum dentre os demais personagens do romance, Srta Bennet é realmente apaixonante , para Darcy , por ser tudo o que ele não é , e para nós, por proporcionar uma leitura maravilhosa.

Dentre os personagens deliciosos da trama, minha preferida é a mãe de Elizabeth. Sra Bennet, tão absorta em seu papel de mãe de filhas sem dote apropriado. Tudo o que a Sra Bennet quer é casar as filhas. Mas isso não pode ser visto como futilidade. É questão de sobrevivência. A obra de Jane Austen , além do valor literário, tem função histórica por mostrar ao leitor atual como funcionava a sucessão das famílias na Inglaterra do século 19. Não era fácil ser mulher sem fortuna ou um bom casamento. Se o pai de uma mulher nestas condições morresse, os bens iriam para o parente mais próximo do sexo masculino. Salvo melhor juízo, a obra que melhor reflete esta afimação é Razão e Sensibilidade, em seus primeiros capítulos , mas a preocupação quase irritante da Sra. Bennet dá bem o tom da tragédia da mulher inglesa da época.


Muito já se escreveu e ainda será escrito sobre a obra de Auten. Esta modesta quase-resenha, publicada em razão da II Leitura Coletiva é apenas uma singela homenagem à grande escritora inglesa. A Leitura Coletiva acontece até dia 07 de novembro . Nos próximos dias publico links com as resenhas dos demais participantes do grupo.


Na imagem - Foto do google images Laurence Olivier e Greer Garson, meus Darcy e Lizzy preferidos do cinema.





2.11.09

[Grande] Filme - Entre os muros da escola



Entre os muros da escola ( Entre les murs- 2008-FRA) - fiquei me perguntando o motivo de se acrescentar o vocábulo escola na versão brasileira e não consegui resposta- é um filme que merece ser assistido. Vencedor da palma de ouro do Festival de Cannes de 2008, o filme de Laurent Cantet é ao mesmo tempo consolador e deprimente.


Em clima de documentário, o filme baseado no livro de François Bégaudeau ( que interpreta a si próprio na filmagem )mostra a relação professor x aluno em uma escola pública do subúrbio de Paris que atende a classe operária e filhos de imigrantes de Mali, Antilhas, Argélia, China e outros países. O estabelecimento é bem aparelhado, afinal, a película se passa na França. O abismo entre professores e alunos, contudo, é imenso.

A falha na comunicação dentro de sala de aula deixa o expectador com experiência em educação ( e possívelmente até o que atue em área diversa) perplexo. como é possível, afinal, em um país invejado por seu avanço político e cultural, acontecer cenas como as retratadas em Entre os muros?


A resposta talvez seja : Essas coisas acontecem porque estamos tratando de um dilema universal. Motivar e conquistar os alunos. Trazê-los para sua causa é um desafio de qualquer professor. Lutar por aparelhamento do estabelecimento de ensino e melhor condições de trabalho para o educador ajuda, mas não define a questão.


Acostumada a filmes com temática de sala de aula, assisti ao filme incrédula e esperando, a todo tempo , a música aparecer - não há trilha sonora- e o professor salvar algum aluno com problemas. Talvez alguém morresse no grupo e o incidente contribuísse para unir a turma decidida e educar-se a todo custo e promover uma mudança social. Mas nada disso acontece. Entre os muros merece a Palma de Ouro , nosso aplauso e muita atenção.