
Florinda era caprichosa. Era esta a opinião geral e ela parece ter sido convencida pelo que todo mundo dizia. Essas coisas acontecem. O sujeito não sabe o que fazer da própria vida, um dia um desavisado acha que percebeu alguma coisa oculta atrás daquele eu. Publica sua opinião a ouvidos atentos . Está feito um engano que irá mundo afora como penas na ventania.
Voltando ao assunto, Florinda era caprichosa. Desde que o tal desavisado resolveu isto para ela, todos os seus desejos passaram a ser cumpridos à risca sob pena de serem impostos graves flagelos aos desobedientes. Além da opinião alheia, alimentava seus caprichos o fato de ser filha de abastado fazendeiro, o maior da região. Colheita de café carregada por empregados robustos.
Acostumada a ver quadros de Portinari através de sua janela, Florinda aos 19 anos resolveu - depois de embolar suas saias com o capataz da fazenda, o filho da cozinheira, um amigo do pai e três ou quatro secadores de semente - conquistar o único homem que não a olhava de baixo pra cima.
O vigário, não usasse batina, chamaria a atenção das beatas mais severas. A verdade é que apesar da batina sua missa lotava menos pelo sermão progressista que pelos olhos azuis brilhando por trás da pele morena. Padre por feliz imposição da família, o vigário descobriu sua vocação quando entrou a contragosto no seminário. Deixando a mãe chorosa e o pai feliz atrás da porta de carvalho firme fechada pelo capelão. Apresentado à filosofia, vislumbrou um mundo novo, o das idéias. Convenceu-se que a fé do povo poderia ser a mola mestra para a revolução.
O povo gostava do palavrado do padre. A maioria, contudo, acreditava que aquele discurso todo não mudariam as coisas. Patrão continuaria a ser patrão até o fim dos tempos . E empregado, continuaria a ser empregado. Mas, a missa era boa. E o modo de incutir sentimento politico no povaréu, por curioso que seja, era manso e não despertava atenção de quem mandava por ali. A vida do vigário seguia bem, até Florinda resolver fazê-lo de brinquedo.
Além dos domingos pela manhã, Florinda passou a sair para confessar todos os dias alegando estar passando por um período de meditação. Em casa ninguém estranhou. O que Florinda dizia era nada menos do que a verdade. No confessionário, contou todos os pecados cometidos atrás do celeiro da fazenda, na cocheira, no cafezal. Ao mesmo tempo passou a contribuir com sua mesada para as obras assistenciais. Sempre ao final da missa era a primeira a cumprimentar o padre por suas palavras. O detalhe é que, se fosse perguntada, não poderia repetir sequer uma delas. Limitava-se a levantar, ajoelhar e procurar os cânticos no livro toda vez que o povo fazia o mesmo enquanto maquinava atimanhas de sedução.
O assédio velado durou três meses sem que recebesse sinal do padre de que houvesse o mínimo interesse. Como noventa dias era muito mais tempo do que poderia dignar-se a investir num alvo, Florzinha, como era chamada pela mãe, resolveu atacar de frente. Um belo dia, ou melhor, uma bela noite apareceu na casa paroquial armada até os dentes para a guerra, batendo na porta avidamente.
O vigário, que já havia tomado sua sopa rala, feito as orações e preparava-se para dormir o sono dos justos, abriu a porta com uma vela na mão. Procurando refazer-se do espanto de encontrar a moça tão tarde da noite parada a sua porta, perguntou mansamente o que poderia fazer para ajudar. Florinda disse em apenas três palavras o que desejava. Como esperasse resistência, já possuia todos os argumentos e artimanhas cuidadosamente ensaiados para contra atacar. Acrescentou que não tolerava ver seus caprichos recusados, que todos sabiam que era assim que resolvia o que desejava. O padre calmamente sentou-se. Fez toda a argumentação dialética aprendida nos anos de seminário. Questionou as motivações e verdadeiros sentimentos e após três quartos de hora viu que não dissuadiria Florinda. Então, perguntou se ela assumiria as consequências do ato e, diante da cega afirmativa, levou-a para o quarto.
Antes do galo cantar, Florinda voltou para a fazenda triunfante. Passou a semana cantarolando canções inventadas, rindo de si e de todos. Os pais vendo-a feliz não fizeram perguntas. A ordem era satisfazer Florinda e, com toda certeza ela parecia satisfeita. No sétimo dia, pela manhã, anunciou seu noivado. Quiseram saber quem era o noivo, a que família pertencia, o volume do patrimônio, se possuia educação elevada. Ao invés de fornecer informações, a Florzinha limitou-se a dizer que logo traria o felizardo para, aos costumes, fazer o pedido.
Naquela tarde saiu impecavelmente vestida para notificar o vigário de que, para o futuro, vigário não mais seria. A noite do pecado revelara, por certo, a ambos o verdadeiro sentido do amor. Quase certo. A porta da sacristia foi aberta por um velhinho. Usava batina e comunicou à Florinda que o antigo vigário obteve permissão para ir à Roma para aprofundar os estudos em filosofia canônica. Passara a incumbência de pastorear a cidadezinha ao velho padre que ali estava. Perguntou então à mocinha se gostaria de ser ouvida em confissão.
Florinda voltou para casa em silêncio. Assim permaneceu. Não falou sequer uma palavra sobre o ocorrido ou qualquer outra coisa. Logo parou de abrir a boca até mesmo para comer. Comenta-se que enlouqueceu de tanto capricho. "Florinda era caprichosa." É o que diz sua lápide.
Fim.
















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10 fios puxados
Não é a toa q vc propoe muitas postagens coletivas literárias. Seu texto é literatura pura, ótimo e merece ser lido como páginas de um livro impresso. Adorei.
Besos
Achei uma delícia este conto, Vanessa. O que mais me agradou nele: o humor e as insinuações, no sentido de que o importante não é só o que está escrito, mas insinuado, e isso fica para a imaginação do leitor... Parabéns, Vanessa.
Adorei.
Me trouxe leveza para um dia um pouco pesado para mim hoje.
Viajar nesse conto me fez bem.
Obrigada!
Beijos
Amei esse conto! Nossa q delícia foi lê-lo se fosse um livro com toda certeza eu iria lê-lo.
Bjão
Vanessa,
Bem poderia dizer que Florinda teve o que mereceu, mas não farei assim. Gostei muito do conto, muito bem escrito, vívido.
Abraços.
Amigos, muito obrigada pelos comentários elogiosos. D. Ramírez, Deus te ouça e que os editores que agora lêem meus originais pensem o mesmo que vc.
Abraço
Vanessa, sensacional e que licao a Florinda recebeu. Pena que acabou tao trágico para ela.
Mas a vida é assim mesmo.
Parabéns pela escrita deliciosa.
Beijos
Ola flor, faz tempo que não apareço por aqui mas é por falta de tempo viu...amei a historia de florinda pois e aquele antigo ditado ne: quem procura acha...muito bem contada parabens...nao esqueci de te enviar minha cronica ainda nao viu...so que to na correria mas assim que der te envio...enquanto te convido a ir la no kriativa tem selinhos para voce la hoje nao sei se voce gosta mas se quiser pode ir buscar. bjos apareço sempre que der viu...amo esse cantinho
Mas bah, guria.
Que lindo conto, lindo também o seu contar, fazendo-nos caminhar o caminho dos caprichos de Florinda...Até testemunharmos seu compromisso de assumir o preço do capricho que a poria frente ao amor, amor que logo mostrou-se impossível, impondo a própria vida como preço a ser caprichosamente pago.
Parabéns e boa sorte com os editores.
Vanessa,
Aplausos para você. Este conto é fantástico.
Você utilizou elementos, digamos, religiosos para relacioná-los com a trama; por exemplo, no "'sétimo' dia de manhã anunciou seu noivado". Afinal, o homem era padre cristão.
Gostei também do fim surpreendente para o leitor. Todos imaginávamos que a caprichosa Florinda conseguiria seu intento que era o de casar com o padre. Entretanto, seu capricho foi frustrado com a vinda de um padre ancião para a paróquia.
Interessante também é o uso do nome Florinda. É uma ironia,não é?
Vanessa, você escreve contos do jeito que eu gosto: nada é por acaso, cada elemento tem uma razão de ser.
Abraços.
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