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20.10.09

Republicação - conto - As mágoas


Adelina magoava fácil. Qualquer palavra atravessada feria gravemente seu coração. Cada ferimento doía fundo e cicatrizava devagar fazendo-a entristecer a cada golpe.

Mas, nem só de mágoas vivia Adelina. Quando não era assaltada pela oitiva de palavras ferinas, a mulher mantinha a paisagem florida, o ambiente perfumado e esforçava-se para manter tudo muito bem, como deve ser. Sofrer todo mundo sofre. E Adelina não tinha vocação pra sofredora.


Como a mágoa de cada dor sofrida custasse a passar, certo dia Adelina resolveu colocar uma parte menos frágil para funcionar. Pensou, pensou numa fórmula de receber o que lhe doía sem deixar o sofrimento curtir fundo. Concluiu que a dor era mesmo inevitável. Só pararia se ela mudasse seu jeito de ser e, para tanto, já era tarde de mais. Diante do inevitável, ao invés de relaxar e aproveitar, vez que de masoquista Adelina não tinha nada, resolveu ceder.


Sim, resolveu ceder toda vez que recebia dos outros aquelas palavras que machucam. Sentia as primeiras dores, recolhia cada uma delas e guardava numa caixa nem grande nem pequena. Fosse pequena demais, as dores não caberiam. Fosse demasiado grande, dançariam frouxas ali dentro quando a idéia era que ficassem recolhidas.


Por muito tempo Adelina recolheu suas dores e as guardou na caixa nem grande nem pequena, forrada com papel de seda verde desbotado com flores miúdas, escondida no fundo do armário de louças da sala. Por muito tempo acumulou dores imaginando ser isto melhor que acumular mágoas. Um dia a caixa estourou mas, esta é outra história.

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