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5.11.09

Diego´s Trips no Crônicas dos Outros


Crônicas dos Outros começa hoje com um texto do Diego Azevedo Sodré do Blog Diego's Trips.  Visite o blog do Diego e, se quiser participar, envie sua crônica que toda quinta o Fio publica. 


 A morena dos olhos verdes e mechas douradas


Hoje, percebe-se muito bem o crescimento do setor imobiliário no país, apesar da crise que assola o mundo globalizado. Quem consegue perceber isso bem são aqueles que faturaram uma grana preta vendendo seus terrenos, ou moram ao lado de construções –que é meu caso.

Pra vocês terem ideia, na minha rua foram e estão sendo construídos cerca de 7 novos edifícios. A tendência é esse número aumentar. E muito.

Antes desses edifícios, todo dia eu via a morena dos olhos verdes e mechas douradas passar na minha rua. Ela nunca sorriu pra mim, porém eu me transformava num enorme sorriso toda vez que a via.

A morena dos olhos verdes e mechas douradas, na verdade, planava pela calçada desnivelada e esburacada. Não havia um carro que não prestasse atenção em seus cabelos aos ventos, suas mãos tão pequeninas, suas curvas tão belas, suas covinhas tão vermelhas e sua estatura de mocinha; tudo isso ao sabor da contemplação e inveja alheia.

Os meninos da minha rua suplicavam e choravam por seu amor, e ela sempre dizia a mesma coisa, Não! Nenhum homem merece meu amor!

Acho que ela era especial por isso, pois ninguém conseguia faze-la de “peguete”. Ela era demais. Um anjo que veio me dar uma razão pra viver. Única. Eterna.

Com o tempo, o primeiro edifício ficou pronto e a menina dos olhos verdes arranjou um namorado. Era forte, ia pra academia todo dia, se gabava pelo que tinha, roupas de marca, a moto Kawasaki Ninja, a cobertura; saía sempre com os amigos pras raves e baladas, não ligava pra estudo, pois bastava ser como o pai: político. Era o par perfeito pra ela; afinal, os opostos se atraem.

Mais tarde, outro edifício ficou completo. Ela descobriu que o namorado a tinha traído com “uma outra vagabunda aí qualquer”. Pensou em terminar com ele. Se interessara por um carinha da Tijuca.

Com o terceiro, descobriu que estava grávida. Três meses. Deve ter sido numa balada aí da vida. Ela não tinha certeza de quem poderia ser o pai. O namorado não quis saber dela e do feto, terminou o namoro alegando que não ia dar uma de corno assumido. Ele podia ser burro, mas era esperto. Sua mãe defendeu que ela devia continuar com o bebê. O pai é interrompido durante o trabalho pela mãe e dá a sua opinião: “hmmm, faça isso, querida”. Está ocupado demais com os relatórios da empresa. Sempre.

Um novo edifício surgiu no horizonte, tampando o por-do-sol. A morena perdeu a mãe num assalto. E o pai, que vivia traindo a esposa nas viagens empresariais, entrou em depressão.

Antes de completar o quinto edifício, a menina olha pro horizonte pela varanda do apartamento. As estrelas, que antes coloriam o céu, passaram a dividir o lugar com as centenas de luzes dos outros apartamentos. Decepcionada com a vida, ela resolve bater as asas e fugir pra bem longe.

Dessa maneira, com o prédios, os carros, ônibus, motos, o sol, necessário para sarar as feridas, tanto da carne quanto da alma, foi tampado de vez. A minha rua passou a parecer um filme em preto e branco.

E a morena era o meu sol. Era a fuga das minhas frustrações. Apesar dos engarrafamentos, da poeira, da fumaça, das buzinas e das obras, tudo ficaria bucólico se ela estivesse aqui. Ela me deixou com uma ferida enorme no coração. Só ela poderia cicatriza-la...

Apesar disso, o show tem que continuar. Todas as noites, mesmo com vários prédios, eu ainda consigo ver um pedaço do céu. E lá eu fico até o sono me chamar, numa árdua, porém digna, missão: achar a minha morena dos olhos verdes e mechas douradas. Não posso vacilar a nenhum instante, pois, num pisque, ela pode passar e eu perdê-la de novo. Um dia eu a acho, tenho certeza. E ela irá sorrir pra mim.




3.11.09

Orgulho e Preconceito


Já ouvi gente dizendo que Jane Austen é uma autora de mulherzinha, de fofoca, de vila. Isto é absolutamente irrelevante; já ouvi gente dizendo todo tipo de coisa. Jane Austen deixou textos realmente incríveis. Especialista na construção de personagens e na sua retratação, impossível ler suas histórias sem ter uma perfeita imagen mental de tudo. A melhor parte é que o texto não se prende a detalhes estéticos mas aos detalhes humanos. A partir daí constrói-se toda a narrativa, brilhantemente.

Em Orgulho e Preconceito, que acabo de reler, Austen conta a história de um amor improvável. Um esnobe rapaz da corte londrina cai de amores por uma moça provinciana com nobres valores. Falando assim parece mesmo difícil de imaginar. Mas a autora nos conduz através do sentimento humano, aquele caminho que os defeitos do Sr. Darcy não são capazes de cruzar ilesos. Para nos convencer definitivamente que um homem muito rico e besta ( não consigo encontrar palavra melhor para definir Darcy) pode mesmo se apaixonar por uma moça simples, without conections, Jane resolveu criar uma das mais maravilhoras heroínas da literatura.

Elizabeth Bennet,Lizzy, a moça por quem Darcy se apaixona, é tudo o que todo mundo sonha para irmã, filha, namorada, nora, vizinha... Dotada de um bom senso incomum dentre os demais personagens do romance, Srta Bennet é realmente apaixonante , para Darcy , por ser tudo o que ele não é , e para nós, por proporcionar uma leitura maravilhosa.

Dentre os personagens deliciosos da trama, minha preferida é a mãe de Elizabeth. Sra Bennet, tão absorta em seu papel de mãe de filhas sem dote apropriado. Tudo o que a Sra Bennet quer é casar as filhas. Mas isso não pode ser visto como futilidade. É questão de sobrevivência. A obra de Jane Austen , além do valor literário, tem função histórica por mostrar ao leitor atual como funcionava a sucessão das famílias na Inglaterra do século 19. Não era fácil ser mulher sem fortuna ou um bom casamento. Se o pai de uma mulher nestas condições morresse, os bens iriam para o parente mais próximo do sexo masculino. Salvo melhor juízo, a obra que melhor reflete esta afimação é Razão e Sensibilidade, em seus primeiros capítulos , mas a preocupação quase irritante da Sra. Bennet dá bem o tom da tragédia da mulher inglesa da época.


Muito já se escreveu e ainda será escrito sobre a obra de Auten. Esta modesta quase-resenha, publicada em razão da II Leitura Coletiva é apenas uma singela homenagem à grande escritora inglesa. A Leitura Coletiva acontece até dia 07 de novembro . Nos próximos dias publico links com as resenhas dos demais participantes do grupo.


Na imagem - Foto do google images Laurence Olivier e Greer Garson, meus Darcy e Lizzy preferidos do cinema.





2.11.09

[Grande] Filme - Entre os muros da escola



Entre os muros da escola ( Entre les murs- 2008-FRA) - fiquei me perguntando o motivo de se acrescentar o vocábulo escola na versão brasileira e não consegui resposta- é um filme que merece ser assistido. Vencedor da palma de ouro do Festival de Cannes de 2008, o filme de Laurent Cantet é ao mesmo tempo consolador e deprimente.


Em clima de documentário, o filme baseado no livro de François Bégaudeau ( que interpreta a si próprio na filmagem )mostra a relação professor x aluno em uma escola pública do subúrbio de Paris que atende a classe operária e filhos de imigrantes de Mali, Antilhas, Argélia, China e outros países. O estabelecimento é bem aparelhado, afinal, a película se passa na França. O abismo entre professores e alunos, contudo, é imenso.

A falha na comunicação dentro de sala de aula deixa o expectador com experiência em educação ( e possívelmente até o que atue em área diversa) perplexo. como é possível, afinal, em um país invejado por seu avanço político e cultural, acontecer cenas como as retratadas em Entre os muros?


A resposta talvez seja : Essas coisas acontecem porque estamos tratando de um dilema universal. Motivar e conquistar os alunos. Trazê-los para sua causa é um desafio de qualquer professor. Lutar por aparelhamento do estabelecimento de ensino e melhor condições de trabalho para o educador ajuda, mas não define a questão.


Acostumada a filmes com temática de sala de aula, assisti ao filme incrédula e esperando, a todo tempo , a música aparecer - não há trilha sonora- e o professor salvar algum aluno com problemas. Talvez alguém morresse no grupo e o incidente contribuísse para unir a turma decidida e educar-se a todo custo e promover uma mudança social. Mas nada disso acontece. Entre os muros merece a Palma de Ouro , nosso aplauso e muita atenção.


31.10.09

Educação financeira


Educação financeira? Alguns blogueiros aceitaram o debate proposto por Cybele Meyer. E aí vai minha modesta opinião. Há quem pense que educar financeiramente é ensinar aos filhos que não se deve gastar mais do que se ganha. Errado. Esta é somente a primeira lição. A básica. Nível 1. Maternalzinho. A questão é bem mais ampla. Infelizmente.

Uma verdade a ser levada em conta é : somos humanos. Outra verdade: vivemos num mundo capitalista. Concluir que a mente humana pode ser facilmente encaganada por mecanismos do Capital é natural.

Somos movidos por hormônios. E humores. Vivemos em constante competição por absoluta necessidade. Precisamos sobreviver e neste mundo do Capital já não basta sair da caverna e abater um javali. Precisamos de coisas. Mais coisas do que podemos carregar. Tornamos nossas vidas absurdamente complexas. Muito mais que a vida dos homens que caçavam javalis e muito mais do que a vida dos nossos avós, que nunca viram um javali cara a cara e mesmo assim eram de manutenção bem mais simplificada.

Pois imagine só, depois de inventarmos tanto o que consumir, manter, vivenciar, inventamos de ter filhos e precisamos criá-los garantindo-lhes uma mente sadia. É preciso explicar-lhes que todas as coisas que alegadamente necessitamos possuem um preço não exclusivamente monetário. O custo de todas as coisas tão imprescidíveis pode ser traduzido em saúde, liberdade, felicidade, paz.

Não há como fugir do caminho para o qual este debate aponta. Precisamos criar consumidores conscientes e equilibrados e educação financeira é consumir com a maior independência possível. Como alcançar isto? Evitando compensações materiais para faltas imateriais. Assim, se você um dia concluir que pode estar trabalhando muito e vendo seu filho menos do que deveria, tente imaginar que isto é provisório, que há um bom motivo para tanto trabalho - possivelmente seu filho - e compensar com qualidade do tempo que resta. Nada de presente pra dizer que ama, estar presente é dizer que ama. E quando a vida nos impede de estar presente todo o tempo, estar totalmente presente o tempo que se dispõe faz toda a diferença. É o que importa.

Quando seu pequeno estiver triste - e tristezas acontecem a todos - procure alegrá-lo com sua essência ao invés de um embrulho bonito. Fortalecer o eu do seu filho de modo que ele obtenha certeza absoluta de que é um ser humano completo sem bens materiais é primordial. Trabalhando conceitos como estes e lembrando, é claro, que não se deve gastar mais do que se ganha e que poupança é importante para um futuro que só a Deus pertence educação financeira será naturalmente parte da formação deste ser tão especial.

30.10.09

Eu no Vida Blogueira


Fui entrevistada pela Nade do blog Orgulho de Ser em seu novo espaço, o Vida Blogueira. Para ler a entrevista clique na imagem acima.

29.10.09

A grávida e o resto do mundo - Republicação - crônica




A grávida não é mais um . A grávida é dois, dois em um. E vale por dois, por dois come. Quando anda na rua, o dois some. O que importa é o barrigão. Todo mundo olha e sorri. Uma vez , no auge da minha barriga, um dia pela manhã, uma senhora disse que ver uma grávida logo assim que se sai de casa é sinal de boa sorte. Sorte pra quem, pra ela ou pra grávida? Não importa.

A grávida escuta de tudo, que a barriga está grande, que está pequena. Que não engordou, que está imensa. Que é menino, que é menina. Deseja-se sorte e boa hora. A grávida não é mais si e de si perde-se temporariamente. A grávida é o arauto do alguém que vai chegar e, quem sabe, mudar o mundo. O pequeno que virá sem saber que o buraco é fundo, que a dor é imensa que a batalha é inglória.
 
No ônibus todo mundo levanta. Quer dizer quase todo mundo. Os velhos, levantam sempre, mesmo que a grávida jure que está muito bem. Velho sabe o que é ser grávida, seja porque já foi uma , seja porque já foi pai. Parece que a barriga imensa traz boas recordações, pois na hora em que a grávida aceita o lugar recebe uma piscadela do gentil ancião.
 
Não fosse o peso que carrega, poderíamos dizer que a grávida se diverte ao mesmo tempo em que oferece diversão. Mas o que a grávida não sabe, ao menos aquela que carrega o primeiro barrigão, é que quando a barriga migrar, for embora, murchar, tudo o que ouviu sozinha com o filho nos braços ouvirá. Que ele é pequeno, que é grande demais, que é esperto, sorridente, sério, feliz, bravo, bonito, travesso, educado, chorão. Não, eles nunca concordarão. É que o povo que passa fala de si, vê-se no outro e repete o que o tem no espelho em visão.


* A imagem é do National Geographic

28.10.09

Crônicas dos outros

Depois do poesia todo dia e do concurso de contos, chegou a vez das crônicas. Quer ver seu texto publicado no blog? A partir do mês de novembro o Fio publicará toda quintas feiras uma crônica dos assinantes . Para participar, envie sua crônica com tema livre para fiodeariadne.blog@gmail.com com assunto CRÔNICAS DOS OUTROS . As melhores crônicas recebidas serão publicadas . As mais comentadas , ganharão brindes. Participam os assinantes do Fio, se você ainda não é assinante entre com seu email na caixa abaixo e confirme o requerimento através do email que receberá na sua caixa postal.


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27.10.09

Propaganda para mulher



Antes da revolução sexual, na época de mocinha da minha mãe, a propaganda voltada para o público feminino tinha uma mensagem clara : você precisa ser uma boa dona de casa. Fico imaginando a confusão que se criou na cabeça das mulheres da geração da minha mãe, mas isso dá um outro post. A questão é que hoje em dia, apesar de ainda existir muita propaganda voltada para a dona de casa, agora uma mulher bem diferente, o foco passou a ser : você é cheia de problemas.

O leitor já reparou na propaganda do horário nobre da tevê aberta? Esperamos a novela começar assitindo propaganda de cerveja para os homens, de lindos carros para os homens, de barbeadores para os homens e produtos de higiene íntima e iogurtes com efeito laxante para as mulheres. Estes últimos são bem pensados, foram chamadas belas atrizes e e famosas escritoras para recomendarem os produtos. Com riqueza de detalhes as mulheres explicam como os intestinos funcionam mal . Será que a mulher é mesmo só isso? Um intestino que funciona mal. Alguém com prisão de ventre assistindo novela com um cara que gosta de cerveja e está de olho num carro novo. Entre um iogurte e outro ela usa um mata mosquitos para garantir uma noite tranquila para sua família. No dia seguinte, dá-lhe iogurte.

Já escrevi sobre o assunto mulher e propaganda em Até que ponto o mercado sugestiona você? e Para a propaganda mulher só quer casar . E se as estatísticas que venho lendo ultimamente, que dão conta de que as mulheres não só consomem bastante como são as responsáveis pela decisão de consumo em casa, estão certas, estamos merecendo uma atenção melhor. Isso e uma dieta rica em fibras.

*imagens google images

26.10.09

Ela queria casar - conto - Republicação






Ela queria casar.
Ainda que estranhassem todos os que a conheciam.
Pelo carro do ano , o apartamento arrumado, a janela do quarto de frente pro mar.
O trabalho invejado, a roupa perfeita, o olhar.


Ela queria casar.
Ainda que falassem todos os que a queriam.
Que isso não é mais assim.
Que mulher hoje não precisa de ninguém.

Ela queria casar.
Casar e casar somente
Nem mesmo o MBA , a dúzia de livros na cabeceira, os discos de jazz,
Nem mesmo os projetos a faziam esquecer que só queria uma coisa : casar.
Nem sabia com quem.


Não encontrou?
Achará.
Já sabe o nome do feitor do vestido, a música que tocará,
Quantos doces e cores a mesa terá.


Ela queria casar.
E querendo casar, casou.
Achou o coadjuvante, que aceitou em cima do bolo ficar.
O casar porque este é meu sonho.
E de sonho a festa vou ter.


Ela queria casar.
E casou.
Na lua-de-mel viajou
Um álbum de fotos tem pra mostrar.

Ela queria casar.
E voltou para o apartamento com quarto de frente pro mar.


Ela queria casar.
Acontece que no fim esqueceu que é preciso levar.
A vida até o sonho acabar.
E acabou tão logo que não encontrou lágrima que pudesse chorar.

Ficou com o apartamento, a janela, o mar.
O divórcio saiu num instante.
Ela só queria casar.













*A imagem eu achei no Blog Crônicas






23.10.09

Sacola plástica, não! - Republicação - Crônica







A maioria agora chama 'ecobag' e para mim é sacola de feira. Não importa. Se o leitor quiser usar o nome estrangeiro, não torcerei meu 'nose', digo, meu nariz. Torcerei apenas para que use a sacola, seja ela feita de pano, nylon ou palha. O importante é reduzir tanto quanto possível o uso das famigeradas bolsas descartáveis fornecidas pelo comércio na hora das compras.


Imaginar que a sacola que eu trago da farmácia permanecerá sobre a face da Terra durante séculos após o fim do meu resfriado e de meus bisnetos causa arrepios. Eu sei, é inegável o fato de que vivemos em uma sociedade que consome e é consumida. Impossível fugir a esta verdade. Mas por que consumir tanto ?

O motivo deste post é chamar a sua atenção a um problema de todos: a quantidade absurda de lixo que produzimos. Se é possível sair de casa para ir ao mercado carregando uma sacola para trazer aquilo que necessitamos sem poluir o meio ambiente por que não fazê-lo? Para quem gosta de andar na moda existem modelos lindos, para quem gosta de saber que está fazendo a sua parte existem modelos simples, como a vida. E cá entre nós, essas sacolas de mercado não duram dois metros de caminhada sem estourar se não estiverem duplamente reforçadas. Se o uso da sacola permanente não for pelo ambiente, caro leitor, sugiro que seja para salvar suas compras de se espalharem na rua.


Mas eu sei que não é assim tão fácil aderir e posso informar que muita gente olha torto quando eu chego com a minha sacolinha e aviso que não quero que empacote as compras com sacola plástica. Mas se tudo se limitasse ao olho torto, muito que bem. O problema é que alguns passam a ignorar minha humilde pessoa tão logo eu profiro a frase" Não precisa colocar no saco plástico , eu trouxe a minha sacola". A partir deste ponto eu não existo mais e ninguém me ajuda a arrumar as compras. É estranho porque é novo. Sou da época das sacolas fortes de papel que eram usadas por poucos. Lembro que minha avó tinha uma de couro a prova de peso.


Assim como aderimos ao polipropileno , provavelmente por ser mais barato que o papel, tenho fé que conseguiremos abandoná-lo e ir ás compras em paz e diminuir a herança de entulho que nossos filhos receberão. O planeta agradece.


* Imagem retirada do blog




  • Política & Sustentabilidade




  • 22.10.09

    O Remorso - Republicação - Conto







    Rio , 1939     






    Apressado, Nestor tropeça na caixa deixada na calçada e olha mecanicamente para o interior do boteco. Espantado, vê Rodrigues, figura das mais reservadas, bebendo sozinho no balcão.

    Nunca soube que Rodrigues bebesse e, se o fazia, deveria ser por algum motivo sério. Conferiu o relógio; tinha ainda dez minutos. Rodrigues sempre lhe fora um amigo das horas mais difíceis, isto sem contar os tostões que lhe devia e não sabia ainda como iria pagar.

    Constatou, chegando perto, que só reconhecia Rodrigues por conta do tique de bater nervosamente com a mão esquerda na perna quando estava contrariado. Do amigo, encontrou só um trapo; chorava e bebia, em silêncio, com o olhar perdido. Decidido a socorrer o infeliz, indagou:



    ___ Criatura, que aconteceu com você? Parece que te passou um bonde por cima. Rodrigues, responda!



    O outro replicou, em silêncio, com mais uma lágrima rolando pela fronte.



    ___ Que aconteceu, tua mãe está bem? – insistiu Nestor já aflito.  Como não conseguiu nada melhor do que: “A mãe? Está...está bem.” , achou melhor falar com o dono do bar.



    ___ Faz três dias que o pobre chega aqui por volta do meio-dia e bebe até o estabelecimento fechar. Ontem, quando eu disse que precisava alimentar-se, comeu três azeitonas.



    __Então faça um café bem forte, parece que já lucraste bastante com a tristeza do homem.



    ___ Pois não, mas vê, ele está bem. Chega e sai sozinho todos os dias; vergonha não faz. Além disto, paga a despesa.



    ___ O café?



    ___ Pois não, pois não. – diz o dono do boteco arrastando os tamancos.



    --------------------------------------------------------------------------------------------------------------





    Café forte, amargo e quente em punho. Nestor senta em frente ao bêbado, que não esboça qualquer reação. “Beba isto, Rodrigues. E desembucha; que raios houve?”



    __ Ela disse-me assim, tenha pena de mim, vá embora.



    __ Ela, quem?



    __ A Isaura.



    __  Não sei. A única que conheço é a telefonista que mora na Rua de Trás.



    __  É ela mesma.



    __ Mas ela é amasiada com o Pedro, almoxarife. Vive esperando que lhe peça a mão. Vocês dois...?



    __ Ela insistiu, disse-me: vais me prejudicar, ele pode chegar, vá embora.



    __ Mas, ninguém nunca comentou nada. Desde quando isso?



    __ Não havia nada para comentar. E eu não tinha motivo nenhum para me recusar.



    __Quando foi isso? Estou admirado.



    __Poderia ter ido, voltado outro dia, outra hora. Ela é tão meiga, gentil. Sempre atende aos meus pedidos. Mas, aos beijos caí em seus braços e pedi pra ficar. Sabe o que se passou ?



    __ Rodrigues, eu estou aqui sentado com você há quase meia hora, estou perdendo um compromisso importante, tudo para saber o que se passou.



    __ Ele nos encontrou e agora ela sofre somente por que foi fazer o que eu quis.



    __Calma. Você não podia imaginar.



    __Ela avisou, pediu, implorou. E o remorso está me torturando por ter feito a loucura que fiz.


    __ Mas, qual foi a reação do Pedro?



    __ Calmamente juntou suas coisas e saiu, deixando a Isaura aos prantos.



    __Mas, pense bem, foi melhor assim. Pra que viver enganando?



    __Ela quer casar, isso eu não posso fazer. Estraguei tudo.



    __Mas não é melhor achar alguém livre? Só podia acabar em confusão.



    __ Eu não me perdôo, por um simples prazer fui fazer meu amor infeliz.



    __ Termine esse café que já deve estar frio e vamos pra casa tomar um banho e fazer esta barba.



    __Mas, e o seu compromisso, Nestor?



    __Deixa pra lá. Mulher só dá mesmo problema.





    * conto inspirado humildemente na letra de Ela disse-me assim, de Lupicínio Rodrigues, que , segundo dizem, escrevia fatos da vida real.




    21.10.09

    Conto de minuto


    Atravessou a rua olhando para trás. O medo era tanto que não viu a bicicleta do entregador da farmácia da esquina. Sorte que o ciclista havia regulado a máquina no dia anterior.

    Não houve tempo para boas maneiras. Levantou da calçada com a mão no joelho ralado. Subiu os degraus de dois em dois e escorregou quando chegou no topo. Sorte que o faxineiro segurou com o esfregão.

    'Opa' saiu como pedido de desculpas. Adiantou pouco já que deixou marcas de lama no chão. 'Talvez' pensou o rapaz da faxina 'devesse ter deixado o infeliz rolar a escadaria.'

    Abriu a porta forçando entrada. O arroz já havia queimado.

    20.10.09

    Republicação - conto - As mágoas


    Adelina magoava fácil. Qualquer palavra atravessada feria gravemente seu coração. Cada ferimento doía fundo e cicatrizava devagar fazendo-a entristecer a cada golpe.

    Mas, nem só de mágoas vivia Adelina. Quando não era assaltada pela oitiva de palavras ferinas, a mulher mantinha a paisagem florida, o ambiente perfumado e esforçava-se para manter tudo muito bem, como deve ser. Sofrer todo mundo sofre. E Adelina não tinha vocação pra sofredora.


    Como a mágoa de cada dor sofrida custasse a passar, certo dia Adelina resolveu colocar uma parte menos frágil para funcionar. Pensou, pensou numa fórmula de receber o que lhe doía sem deixar o sofrimento curtir fundo. Concluiu que a dor era mesmo inevitável. Só pararia se ela mudasse seu jeito de ser e, para tanto, já era tarde de mais. Diante do inevitável, ao invés de relaxar e aproveitar, vez que de masoquista Adelina não tinha nada, resolveu ceder.


    Sim, resolveu ceder toda vez que recebia dos outros aquelas palavras que machucam. Sentia as primeiras dores, recolhia cada uma delas e guardava numa caixa nem grande nem pequena. Fosse pequena demais, as dores não caberiam. Fosse demasiado grande, dançariam frouxas ali dentro quando a idéia era que ficassem recolhidas.


    Por muito tempo Adelina recolheu suas dores e as guardou na caixa nem grande nem pequena, forrada com papel de seda verde desbotado com flores miúdas, escondida no fundo do armário de louças da sala. Por muito tempo acumulou dores imaginando ser isto melhor que acumular mágoas. Um dia a caixa estourou mas, esta é outra história.

    18.10.09

    Blog 100 Cabeças


    Perdi a inscrição da gincana de setembro mas este mês eu consegui.Para quem não sabe a Gincana Virtual é um evento dos mesmos criadores da extinta Tertúlia Virtual. ( falar "dos mesmos criadores de" não tem preço). Para visitar o site, copiar o selo e participar da próxima edição , clique aqui.

    E eis minha tarefa cumprida:blog 100 Cabeças


    1ª TAREFA - Vá até o blog "inscrito", imediatamente, antes do seu e:Bem, o blog em questão é o 100 Cabeças de Silvares, em Portugal.
    a) Leia as três últimas postagens. Ok.

    b) Escolha uma delas para responder às perguntas:Escolhi a postagem O estranho caso Maitê

    1) Por que escolheu essa?
    Porque ouvi falar alguma coisa sobre o caso mas não tinha assistido aos videos ainda . Estava curiosa para saber o que havia acontecido e sem tempo para procurar na net. Foi muito bom porque o post está excelente e conta tim tim por tim tim a confusão causada pela grosseria que Maitê Proença fez num programa Saia Justa gravado em Portugal.


    2) O tema é de seu agrado. Por que?

    Sabe como é, a curiosidade matou o gato e eu nutro uma antipatia pela Maitê apesar de achá-la linda e ótima atriz.


    3) Já frequentava esse blog? Caso negativo, qual foi sua impressão?
    Nunca havia visitado o blog. Achei muito bom. O editor escreve sobre assuntos variados e interessantes.

    4) Escolha uma imagem, destas postagens, para ilustrar sua resposta/tarefa. Ok

    5) Faça uma descrição do blog visitado. Comente todos os aspectos que te chamaram ( negativa ou positivamente) a atenção.
    O blog é muito variado , com inúmaras postagens sobre arte , política internacional , literatura entre outros. A variedade de temas foi o que me chamou mais a atenção. Riqueza é uma expressão que define bem o 100 cabeças. Não vejo pontos negativos mas reparei que o layout poderia ser melhor trabalhado, apesar de achar que um bom blog ainda assim vive muito bem, obrigado.

    6) Coloque como título, de sua postagem/tarefa, o nome do blog visitado.
    Bem, tarefa cumprida.

    Ah, quem falou do Fio de Ariadne foi o Blog Asas Róseas num post muito carinhoso, confira aqui

    16.10.09

    O grito - Conto - Republicação




    4:25h
    Abre os olhos; acorda confuso. A única certeza é a de ter ouvido um grito.
    __ Você ouviu?
    __ O quê? – diz a mulher sonolenta.
    __ Um grito.
    __ São cinco horas ainda, me deixa dormir. Deve ter sido sonho.

    Deve ter sido sonho. E as pálpebras não custam a fechar e esconder os olhos pregados no teto. Está quase voltando ao sono bom quando escuta novamente. Pula na cama.
    4.56h
    __ E agora, você ouviu?
    __ Aimeudeus...o quê, um grito?
    __ É, agora ouviu, não foi ?
    __ Ouvi. Você deu um pulo e gritou no meu ouvido : “E agora, você ouviu?” Pára de pensar nisso e vê se dorme.

    Vê se dorme. Não dá p’ra dormir. Senta na cama acende um cigarro e espera. Se houve dois gritos, haverá um terceiro; é quase uma conclusão lógica, não fosse a ausência de qualquer vestígio de racionalidade. Espera. Seis e trinta da manhã e um grito. Desta vez conseguiu ouvir muito bem. Um grito que parece ser algo entre a voz feminina grave e a masculina aguda. Balança a cabeça confuso. Tudo o que sabe é que ouviu um grito e a voz parecia próxima.

    O porteiro não sabia de nenhum problema no prédio, ninguém ligou avisando que ouvia gritos.
    __ Deve ser no prédio vizinho, seu Carlos.
    __ Deve ser.
    Mas está próximo demais para ser no prédio vizinho, a sensação é a de que o grito vem do quarto ao lado.

    No quarto ao lado. Decide sentar e esperar mais um pouco. A convicção de que ouvirá o terceiro grito é tão forte quanto a de que está acordado. Trinta minutos passam até que escuta. Definitivamente não vem do prédio vizinho. O grito é dentro do quarto ao lado, sim.

    A mulher continua dormindo a sono solto, como se fosse surda. E talvez seja, dado que jamais escuta uma palavra do que ele diz. O grito é no quarto, não restam mais dúvidas. Resolve sentar-se à beira da cama cuidadosamente para não acordá-la. Risível circunstância; não escuta o grito, mas pode despertar com um estalo. Esperar. Agora só resta esperar. O grito virá.

    7:45h. Espera profícua: o grito. Nítido, límpido, preciso. Não vem do prédio ao lado, nem do apartamento vizinho. A voz que parece pedir socorro está mesmo dentro do quarto. E não é só. De tão clara pode perceber somente então de onde vem, afinal. O grito vem de dentro de si.








    15.10.09

    Professores do Brasil


    Hoje é dia do professor. Eu preciso escrever um texto sobre isto pois me comprometi com o Valdeir do Ponderantes estou diante da tela em branco sem saber o que dizer. Talvez não saia nada bom. Sou de uma família de professores, fui professora por muitos anos e minha irmã que fugiu da sina no segundo grau, agora, no doutorado, iniciou com suas primeiras turmas.

    Como vivi os dois lados do ensino-aprendizagem acho que posso falar. Professor é muito importante. Tão importante quanto aluno. Por isso quando dizem que o professor anda desvalorizado , e anda, eu entendo que aluno não está valendo mais nada, e não está. E por quê?

    Darcy Ribeiro já havia feito esta pergunta e encontrado uma resposta plausível. Nossas elites, e por mais que este termo elite esteja batido nossa sociedade não funciona de outro jeito então é elite mesmo e olhe lá, sempre souberam nos conduzir com muito sucesso. Sucesso, sim. A educação da maior parte da população sempre foi capenga. A educação da elite, feita lá fora e , depois disso em colégios especialmente criados para ela, a elite. Assim a elite garante sua perpetuação no poder e no topo de uma piramide de base muito muito larga e cume bem, bem estreito.

    E o professor? O professor da maioria da população foi, é e será, mal preparado, remunerado e instrumentalizado. Assim, só se for herói conseguirá ajudar a desfazer o feitiço da elite e educar para libertar. O feiticeiro não contava com a existencia de alguns heróis que conseguiram, conseguem e conseguirão reverter o feitiço. Mas por sorte da elite , são muito poucos. A maioria dos professores do povo sucumbe à receita tão bem feita de como fazer uma nação com dificuldade para pensar por si.

    E o professor? Hoje é dia dele. Professor, você herói, muito obrigada. Pena que você é só um, ou dois , talvez seja meia dúzia de cem ou uma duzia de mil, uma centena de milhões. Pena que é tão pouco. Professor, você que ainda acredita, muito obrigada. Quem sabe um dia, esse esforço todo seu, desfaça de vez o feitiço e quebre também os nossos grilhões.



    Blog Action Day 2009 - Climate Change #BAD09




    *foto do site Earth day

    14.10.09

    Conjecturas - Republicação - conto


    Quanto mais Viriato pensasse, menos entenderia. A cabeça já dolorida não parava de maquinar. Afinal de contas, por que motivo as pessoas insistem em olhar para os outros esperando atitudes preconcebidas? A resposta de que a psicologia explica isso como sendo normal, não serve. Dizer simplesmente que os seres humanos constróem padrões de comportamento estanques, vivem tentando encaixar aqueles com quem se relacionam nos tais padrões e , como as pessoas são sempre diferentes umas das outras, o caos está formado, não adianta.

    Não adianta porque Viriato imaginou que Ana Lúcia já tivesse entendido o tipo de pessoa que ele é, com seus defeitos e qualidades como todos os outros mas, sem a deficiência tão temida da dissimulação, da manipulação e do caráter dúbio. Estava sempre sendo acusado desse tipo de coisa pelo simples motivo de que de fato existem pessoas assim no mundo e, uma vez sedimentada esta premissa , ele haveria de se encaixar no perfil.

    Com base nisso bastava abrir a boca e contrariar sentimentos e opiniões para ser acusado dos crimes citados. Acusado , julgado, condenado. Tudo por hipótese. Só a pena era concreta: maus tratos verbais.

    Por que as pessoas agem assim? Por que desconfiam tanto do que dá certo? Será culpa cristã? Será culpa ou medo de ser feliz? Ao diabo com os psicologos. Ana Lucia não é neurótica e , ainda que seja, não é a única neurótica no mundo de hoje.

    Por que as pessoas agem assim e magoam uns aos outros depois de acordarem de mal com a vida Viriato não vai entender tão cedo. Resolve então tomar uma aspirina. Ajustar-se ao molde de gesso de Ana Lúcia é a tarefa a seguir. E sente que a escultura sairá capenga. *


    * Meras conjecturas baseadas em observações cotidianas.
    ** Imagem  tela Os Amantes de René Magrite, 1928

    12.10.09

    Vida de Escritor - Gabriel Garcia Marquez


    Não , não vou falar do Sabino, fica para ele a homenagem na abertura da coletiva e a foto com o selo. Vou falar de GGM que é o meu preferido.

    Nascido na Colombia em 1928, o jornalista e escritor Gabriel Garcia Marquez tem a escrita que até hoje mais fez a minha cabeça. A culpa é do Dias Gomes, que com a novela Saramandaia abriu minha visão para o realismo fantástico, virei fã. Bem, Dias Gomes é uma outra história. A verdade é que adoro realismo fantástico. Não ao ponto de encarar um livro de Saramago, mas eu gosto. Bem, Saramago é uma outra história também.

    A história de hoje é GGM e vamos lá. Jornalista combativo nunca se graduou , o de pode não servir de alento a quem hoje chora o fim do diploma de jornalismo como exigencia para seguir a carreira no Brasil. Os bons , no caso do jornalismo , prescindem de diploma. Mas estudar sempre é bom e mal não há de fazer. GGM publicou seus primeiros contos no final de 1940 e foi correspondente internacional na década de 50.

    Seus livros sempre me encantaram , em especial, Cem Anos de Solidão, o livro da minha vida ( relembre aqui) , O amor nos tempos do cólera, Do amor e outros demônios ( nascido de uma reportagem que GGM fez anos antes no interior da Colombia. Posso recomendar também o não-ficção Notícia de um sequestro, sobre a atuação de Pablo Escobar na Colômbia de 1990. Quero muito, mas ainda não consegui, ler Viver para contar.

    GGM ganhou ( merecidamente) o Nobel de Literatura de 1982. Sua obra é uma coleção de clássicos latino americanos. Merecem ser lidos por todos nós, pobres esquecidos ao sul do Equador, que reconheceremos em cada linha nossas histórias e sonhos.

    Este texto é parte da blogagem coletiva Vida de Escritor. Participam os 20 blogs listados abaixo, os links das postagens serão atualizados amanhã, quando eu visitarei os participantes e comentarei os posts . Bom feriado!

    1. Diário de Bordo

    2. Minhas Memórias

    3. Enredos e Tramas

    4. Alma Poeta

    5.Publicando

    6. Luciano A. Santos

    7. Mari Amorim Brincando Com a Rima

    8. Luz de Luma yes party!

    9. Reflexões

    10.minha literatura agora

    11.Kriativa blog

    12. 50 Possibilidades

    13. Pele sem flor

    14. Tudo para Todos sobre Nada

    15. Je suis en train de chercher

    16. Almas Tatuadas

    17. Coisas Banais

    18. De Onde Vem a Calma

    19. Devaneios do cotidiano

    20. Blog Coletivo - Uma interação de amigos

    21. IDEIAS DE MILENE

    22. Cachorro Solitário


    9.10.09

    A espada e a cruz - Republicação - conto





    __O senhor pode me levar na Novo Rio?


    __Posso sim, pode entrar.


    __O senhor desculpe , eu cheguei devagar porque sei como estão as coisas hojeem dia. Parado assim no sinal, o senhor podia achar que eu sou assaltante.


    __Ah , não senhor. Eu achei até o rapaz parecido com um colega meu.


    __É que as coisas estão tão complicadas hoje em dia...anda todo mundoassustado.


    __Vai pelo Santa Bárbara? Deve estar meio difícil a essa hora.


    __Pelo Santa Bárbara, sim. Não tem problema.


    __Mas sabe, eu não me preocupo com esse negócio de violência, não. Não 'tônem aí'. Não ando armado, não. Só Deus p'ra me ajudar.


    __E nunca aconteceu nada com o senhor?


    __Nunca! Quer dizer, outro dia, minhamulher telefonou dizendo que tinha um camarada lá no portão de casa em atitudesuspeita desde as quatro da tarde e já eram dez da noite. Eu já estava indopara casa aquela hora e o meu portão é eletrônico. Eu cheguei e vi o sujeitosentado e quando acionei o portão, ele levantou e pensei : É agora, ele vai merender. Mas , nada. Entrei e ele continuou lá, andando de um lado para o outroe falando ao telefone. Já era quase meia noite e o cidadão não saía de lá. Tiveque ir falar com ele. Não era ladrão, ele estava tentando reatar com aex-mulher que trabalhava na casa do vizinho e ela não estava nem aí p'ra ele. Coitado.

    __Só dá maluco.

    __É, mas eu tomo cuidado. Eu não subomorro de jeito nenhum. Se pedir com educação, eu não levo. Só mesmo com umapistola na cabeça. Fiz uma corrida uma vez que depois de andar sem indicação certa ofreguês disse:" Entra aqui, por favor". Era a favela e eu subi ,subi , até lá em cima. Quando eu estava subindo, comecei a achar que aquilo nãoia acabar bem. Até que ele me pediu p'ra entrar num beco. Era muito estreito eeu disse que não ia dar. "Dá sim, tem um larguinho onde dá p'ramanobrar..." . Eu entrei, manobrei, o sujeito me pagou os trinta reais dacorrida e depois me deu mais cem. dizendo "Chefia, tu vai descer com umaencomenda na mala".

    __Encomenda?!

    __É! Dois presuntos na mala do meu carro.Dei por mim quando ouvi o barulho e vi dois homens armados de fuzil. Não tiveescolha, era obedecer ou acompanhar os infelizes na mala.

    __Meu Deus, e como o senhor fez?

    __Fui pra D.P., meu amigo. Chegando lá eu falei com dois policiais o que tinhaacontecido. Eles disseram que não ia dar nada comigo não mas que eu só ia vermeu carro três dias depois. Por mim eu largava o carro pra lá. Mas, fui buscare, quando cheguei o carro 'tava com os bancos cortados e com um pó branco que aVigilância Sanitária jogou. Eles me deram um papel e me mandaram n'uma oficina,o Estado pagou.

    __Pagou o prejuízo?

    __Pagou, ficou novinho. Eles sabem queacontece e já têm até uma verba pra esses casos. Depois do ocorrido eu fiqueisabendo que acontece o tempo todo. Um colega chegou na delegacia na mesmasituação e desmaiou. Os policiais acharam ele dentro do carro desmaiado com ospresuntos na mala.

    __Foi nesse carro aqui?!

    __Não, era um Santana. Eu torquei poresse aqui que não é muito visado. Só fui assaltado com esse uma vez, mas foipor policiais.

    __Policiais?!

    __É , eles deixaram o dinheiro, dizendoque era mixaria, mas levaram o carro e largaram bem longe. Eu passo peloposto policial deles todo dia e não posso fazer nada; eles dizem que se abrir aboca terei problemas. Eles sabem onde eu moro, os documentosestavam no carro, tem número de telefone. A gente não pode fazer nada.

    __Quanto deu aí?

    __Quinze certo.

    __Boa noite e boa sorte , meu senhor.

    __Boa noite, a gente vai com Deus, graçasa Ele nunca me aconteceu nada.

    *imagem daqui